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Rebaixamento do rio e nova rede de drenagem: a complexa obra para reduzir as enchentes em Muriaé

Obra de rebaixamento do rio Muriaé deve ser concluída em 2027. Foto: Prefeitura de Muriaé
Obra de rebaixamento do rio Muriaé deve ser concluída em 2027. Foto: Prefeitura de Muriaé

O município de Muriaé, na Zona da Mata mineira, realiza uma grande obra de rebaixamento do Rio Muriaé que, segundo estimativas da Prefeitura, pode reduzir os impactos das enchentes em áreas historicamente atingidas da cidade. O projeto prevê diminuir em até 1,5 metro o nível alcançado pela água em pontos da mancha de inundação, dependendo do volume e da duração das chuvas.

Iniciada em fevereiro de 2026, a intervenção prevê aprofundar o leito do rio nas proximidades da Ponte da Barra, em um trecho apontado por estudos técnicos como um gargalo para o escoamento da água. Para chegar ao fundo do canal, as equipes terão de desviar temporariamente parte do curso do rio, expor a formação rochosa, perfurá-la, fragmentá-la e retirar os blocos.

O maior desafio encontrado pelos técnicos está justamente debaixo da água.

Levantamentos batimétricos e sondagens mostraram que o fundo do Rio Muriaé, naquele ponto, não é formado apenas por areia, lama ou sedimentos que poderiam ser retirados por uma dragagem convencional. O leito é composto por uma espessa laje de rocha, que reduz a profundidade do canal e dificulta a passagem do volume acumulado durante as cheias.

A complexidade aumenta porque a obra ocorre no centro urbano, perto de casas, edifícios, estabelecimentos comerciais e pontes. Por causa da proximidade das construções, não será possível utilizar uma detonação convencional com dinamite, como ocorre em cortes de estradas.

A solução prevista combina perfurações no maciço rochoso com o uso de argamassa expansiva, material que aumenta de volume dentro dos furos e rompe a pedra gradualmente, com menos vibração, ruído e risco de lançamento de fragmentos.

Antes dessa etapa, a empresa Conservasolo Engenharia, responsável pela execução, constrói uma ensecadeira de gabião dentro do rio. A barreira provisória, formada por estruturas metálicas preenchidas com pedras, desvia a água para um dos lados do canal e cria uma área mais seca para o trabalho das máquinas.

Com o fundo exposto, será possível iniciar a fragmentação e a retirada da rocha. A intenção é deixar o canal mais profundo e aumentar a área disponível para a passagem da água, reduzindo o represamento nos bairros situados antes do trecho.

A obra, orçada em cerca de R$ 13 milhões e financiada com recursos do Novo PAC, é apresentada pela Prefeitura como parte de uma estratégia mais ampla de drenagem. O princípio é que não basta retirar a chuva das ruas por meio de bueiros e galerias se o rio que recebe esse volume continuar sem capacidade para escoá-lo.

“Não adianta captarmos a água dentro da cidade e direcionarmos para o rio se o rio não tiver como comportar toda a água que vai receber”, afirmou o secretário municipal de Obras, Maurício José Carneiro.

Segundo Carneiro, as intervenções precisam funcionar de forma integrada.

“Essas obras têm um paralelo. Todas elas fazem parte do mesmo segmento”, disse.

A explicação aproxima Muriaé dos desafios enfrentados por outras cidades da Zona da Mata, como Ubá e Juiz de Fora, que ainda executam obras de reconstrução e discutem formas de reduzir os danos de novas enchentes.

Em Ubá, as intervenções estão concentradas principalmente na recuperação das margens e na implantação de muros de gabião. Em Juiz de Fora, projetos de macrodrenagem preveem ampliação de canais e estruturas para reter temporariamente a água antes que ela chegue ao Rio Paraibuna.

Muriaé, por sua vez, aposta no rebaixamento do próprio leito para eliminar uma barreira identificada no caminho da água.

Segundo o prefeito Marcos Guarino, os estudos realizados ao longo do Rio Muriaé mostraram que a dragagem convencional não resolveria o problema naquele trecho.

“Foi feita uma batimetria em toda a extensão do rio, e constatou-se nessas sondagens que o fundo é rocha. Então, não tem como dragar, não existe possibilidade de dragagem”, afirmou.

Na prática, a batimetria permite mapear o relevo submerso e identificar elevações e obstáculos no fundo do canal. Foi esse levantamento que revelou a formação rochosa existente nas proximidades da Ponte da Barra.

Guarino explicou que o desvio da água já permitiu deixar parte dessa laje exposta.

“A obra do Rio Muriaé está indo muito bem. Já foi feito o desvio, a rocha está bem exposta, e o trabalho agora é definir como será feita a perfuração daquela laje para começar a quebrá-la”, disse.

O prefeito também destacou que a proximidade de imóveis impede o uso de explosivos convencionais.

“Não pode dinamitar porque tem casa ali perto. Como tem prédio, não dá para fazer o que é feito em estrada: interromper, dinamitar e depois realizar o serviço. Aqui tem que ser com mais cuidado”, afirmou.

De acordo com Maurício José Carneiro, a técnica inicialmente prevista é o desmonte a frio, com perfuração e aplicação de argamassa expansiva.

“Inicialmente, iremos fazer o processo de perfuração e argamassa expansiva. Mas o tipo de rocha, o tipo de solo e o maciço rochoso estão bem complicados”, explicou o secretário.

A equipe técnica também avalia a possibilidade de realizar, em pontos específicos, uma fragmentação localizada da rocha.

Segundo Carneiro, não se trataria de uma grande detonação, mas de um procedimento controlado, destinado apenas ao desplacamento do material.

“Não vai impactar de um modo geral porque será somente um desplacamento. Não será em grandes proporções”, afirmou.

A primeira etapa da obra está concentrada nas proximidades da Ponte da Barra, que permanecerá interditada ao tráfego de veículos durante os serviços. A passagem de pedestres será mantida, e o trânsito será direcionado para rotas alternativas definidas pelo Departamento Municipal de Transportes e Trânsito.

O projeto completo prevê quatro intervenções ao longo do Rio Muriaé, mas os recursos atualmente disponíveis financiam apenas essa primeira fase.

Segundo o prefeito, os técnicos estimam prazo de aproximadamente um ano a um ano e meio para a execução.

A expectativa da Prefeitura é que os primeiros resultados sejam percebidos principalmente em bairros como Santana e Dornelas.

“Com essa primeira etapa, a previsão é que entre 70% e 80% das pessoas dessas regiões já sejam beneficiadas”, declarou Guarino.

As outras três intervenções dependerão da obtenção de novos recursos, além da atualização de licenças e documentos técnicos.

“Os projetos estão prontos. Agora, é preciso lutar para conseguir mais recursos”, disse o prefeito.

O rebaixamento do Rio Muriaé não eliminará sozinho o risco de enchentes. A resposta do rio continuará dependendo da intensidade e da duração das chuvas, do volume recebido pelos afluentes, da ocupação das margens, da impermeabilização do solo e da manutenção da drenagem urbana.

A obra, no entanto, tenta corrigir um obstáculo físico identificado pelos estudos e integrar a capacidade do rio às redes que conduzem a água das ruas até o canal principal.

Para Muriaé, a intervenção carrega a promessa de reduzir um problema histórico.

Para Ubá, Juiz de Fora e outras cidades da Zona da Mata ainda em reconstrução, ela também funcionará como um teste regional sobre a eficácia de grandes obras de macrodrenagem diante de eventos extremos cada vez mais intensos.

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