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Dinheiro acaba, e obras contratadas com deságio praticamente param em Ubá

Nos últimos dias praticamente não há gente trabalhando no trecho da Beira-Rio
Nos últimos dias praticamente não há gente trabalhando no trecho da Beira-Rio

Em meio ao caos na mobilidade urbana de Ubá, duas obras consideradas estratégicas para a reconstrução da cidade após a enchente histórica de fevereiro estão praticamente paradas. As intervenções deveriam ajudar a devolver segurança, acesso e circulação a regiões diretamente afetadas pelo desastre. No entanto, moradores e comerciantes impactados relatam lentidão, ausência de trabalhadores nos canteiros e falta de informações claras sobre o motivo da interrupção.

Uma das obras é a recuperação do trecho da Avenida Beira-Rio próximo à Ponte da Bandeira, uma das regiões mais sensíveis para o trânsito e o comércio local. A intervenção foi iniciada em abril e prevê construção de muro de gabião, recuperação de passeio e recomposição do pavimento. O prazo contratual informado para conclusão é 26 de agosto.

A obra foi anunciada com investimento de R$ 1.659.900,00, valor proveniente de recursos federais destinados à recuperação dos danos causados pelas chuvas. O valor de referência, segundo dados disponíveis no portal de obras da Prefeitura, era de R$ 3.922.033,01. Com isso, a contratação foi fechada com deságio de aproximadamente 57,7%.

Nas últimas semanas, a população impactada já vinha denunciando o ritmo lento dos trabalhos. Agora, moradores e comerciantes tentam entender por que a obra ficou dias parada. Informações obtidas pelo Portal Reconstruções indicam que o freio nas operações estaria ligado à necessidade de um aditivo no valor do contrato, já que o montante contratado teria sido totalmente consumido antes da conclusão dos serviços.

O mesmo problema teria atingido uma segunda intervenção executada pela Remar: a recuperação da ponte que liga os bairros Rosa de Toledo, Fazendinha, Cidade Nova e Conjunto Habitacional Habitat II. A obra foi contratada por R$ 1.022.500,00, quase metade do valor aprovado para o projeto, estimado em R$ 1.907.968,44. O deságio, neste caso, foi de aproximadamente 46,4%.

A intervenção prevê a construção de muros de gabião, técnica usada para contenção e estabilização de margens, além da recomposição da laje da estrutura, com fornecimento de equipamentos e mão de obra especializada. O prazo informado para execução é de até 180 dias. A ponte é considerada importante para o deslocamento de moradores, o acesso a serviços públicos e a ligação entre bairros da cidade.

Mais de quatro meses depois da enchente, no entanto, a paralisação aumentou a angústia de quem depende da estrutura. Moradores relatam dificuldade de deslocamento, prejuízos na rotina e sensação de abandono diante da falta de informações oficiais sobre a continuidade dos trabalhos.

“Esse desabafo se deve ao cansaço, e hoje a gota que faltava pingou. Estamos no limite com tudo isso e queremos respostas, nada que seja impossível, claro. Sou leiga nessa área, mas nem necessita de diploma para perceber, enxergar que tem muita coisa errada. Está visto o caos que Ubá se transformou, e nossas vidas também”, protestou uma moradora do Fazendinha em sua conta no Instagram, ao mostrar em vídeo a ausência de trabalhadores no local.

No caso da ponte da Fazendinha, a necessidade de aditivo foi mencionada publicamente pelo próprio vice-prefeito de Ubá, Cabo Rominho, em vídeo publicado nas redes sociais. Ao responder a uma moradora, ele afirmou que o valor destinado à obra já teria sido gasto e que seria necessário ampliar o contrato para permitir a conclusão dos serviços.

“Foi destinado R$ 1 milhão para cá, para fazer a recuperação dessa ponte. Um milhão já foi gasto. Não deu. Precisa fazer um aditivo, aumentar o valor destinado para cá”, disse o vice-prefeito no vídeo.

Ainda segundo Cabo Rominho, o aditivo poderia chegar a 25% do valor contratado, o que representaria cerca de R$ 250 mil a mais para a intervenção. O vice-prefeito afirmou que o recurso adicional seria necessário para concluir a obra, fazer a compactação da terra e garantir novamente o acesso à população.

“Então, prefeito, precisa que o senhor libere o aditivo para a empresa retornar para cá e terminar essa obra”, afirmou. No mesmo vídeo, ele também pediu que a administração municipal autorize uma operação tapa-buracos na principal via do bairro Fazendinha, que, segundo ele, está em “situação de calamidade”.

A declaração do vice-prefeito adiciona um elemento político e administrativo ao impasse. Isso porque a fala parte de dentro da própria gestão municipal e confirma, ao menos no caso da ponte, que o contrato original não foi suficiente para concluir os serviços. A informação reforça a necessidade de transparência sobre as medições já realizadas, os valores efetivamente pagos, o percentual de execução, a justificativa técnica para o aditivo e o novo prazo de conclusão.

No caso da Avenida Beira-Rio, a Prefeitura ainda não informou oficialmente se a situação é a mesma. O Portal Reconstruções procurou a administração municipal e a Remar Construtora, responsável pelas duas intervenções, para saber o que está acontecendo de fato nas duas obras, se há pedido formal de aditivo, qual valor já foi executado, quando os serviços devem ser retomados e quais medidas serão adotadas para reduzir os impactos sobre moradores, motoristas e comerciantes.

Os dois projetos são financiados com recursos destinados pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, para ações de resposta e reconstrução após os danos provocados pelas chuvas. Por se tratar de dinheiro público federal voltado a obras emergenciais, a paralisação exige explicações rápidas e detalhadas.

O deságio em uma licitação, por si só, não significa irregularidade. Em tese, ele representa economia para os cofres públicos quando uma empresa se compromete a executar o serviço por valor menor que o estimado. O problema surge quando contratos com descontos elevados enfrentam paralisações, necessidade de aditivos ou dificuldades de execução antes da entrega final. Nesses casos, é fundamental esclarecer se o orçamento original estava adequado, se a proposta apresentada era exequível, se houve mudança no escopo da obra ou se as medições demonstraram serviços não previstos inicialmente.

Em Ubá, a falta de respostas pesa ainda mais porque a cidade ainda convive com os impactos de longo prazo da pior enchente de sua história. Desde fevereiro, moradores enfrentam interdições, desvios, caos no trânsito, prejuízos ao comércio e insegurança em áreas onde pontes, vias e margens de cursos d’água foram danificadas. Cada paralisação representa mais tempo de espera para famílias que já vivem há meses com a rotina alterada.

A recuperação da Beira-Rio é estratégica porque a avenida concentra circulação intensa e atividades comerciais importantes. A paralisação prolonga transtornos para motoristas, pedestres e empresários que dependem do fluxo da região. Já a ponte que liga Rosa de Toledo, Fazendinha, Cidade Nova e Habitat II é essencial para a mobilidade local e para o acesso cotidiano de moradores a serviços, trabalho, escolas e atendimento público.

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