Os impactos do novo episódio de El Niño sobre a América do Sul devem começar a se tornar mais evidentes durante a primavera de 2026, período em que a atmosfera passa a responder de forma mais consistente ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial. A avaliação é do meteorologista Vitor Takao Suganuma, da Climatempo, após a confirmação oficial do fenômeno pela NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos.
Segundo Suganuma, embora o El Niño já esteja estabelecido no oceano, seus efeitos sobre os padrões de chuva e temperatura no continente sul-americano tendem a aparecer de forma gradual nos próximos meses. “Os sinais mais significativos costumam surgir durante a primavera, quando a influência do Pacífico passa a modificar a circulação atmosférica de forma mais intensa sobre a América do Sul”, explica o meteorologista.
A NOAA declarou oficialmente o início do fenômeno e projeta um cenário de fortalecimento ao longo do segundo semestre. As estimativas indicam uma probabilidade elevada de que o evento alcance intensidade forte ou muito forte entre o fim de 2026 e o verão de 2027, período em que seus efeitos tendem a ser mais abrangentes.
Além das mudanças no regime de chuvas, uma das principais características associadas ao El Niño é a tendência de aumento das temperaturas em grande parte da América do Sul. O aquecimento anormal das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica global e favorece períodos mais prolongados de calor, especialmente no Brasil central.
O que muda no Brasil
De acordo com Vitor Takao Suganuma, a Região Sul deverá ser a primeira a sentir os impactos mais claros do fenômeno. Historicamente, eventos de El Niño favorecem um aumento das chuvas sobre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, elevando o risco de temporais, enchentes e cheias de rios durante a primavera e o verão.
Segundo o meteorologista da Climatempo, a expectativa é de que as temperaturas fiquem acima da média em diversas regiões do país durante a primavera e o verão, com maior frequência de ondas de calor e menor ocorrência de incursões de ar frio persistentes. Em eventos fortes de El Niño, esse padrão costuma ser ainda mais evidente, contribuindo para recordes de temperatura e aumento da sensação de calor em várias áreas do território brasileiro.
“No Sul, normalmente observamos um aumento da frequência de sistemas de chuva e volumes acima da média, especialmente quando o fenômeno apresenta intensidade moderada a forte”, destaca o especialista.
No Sudeste e no Centro-Oeste, os reflexos costumam aparecer na forma de temperaturas mais elevadas e alterações na distribuição das chuvas. Embora isso não signifique necessariamente uma estação seca, os períodos de precipitação podem se tornar mais irregulares, alternando intervalos de calor intenso com episódios de chuva forte.
Já no Norte e em parte do Nordeste, a tendência histórica é de redução das chuvas. Em áreas da Amazônia, isso pode favorecer estiagens mais prolongadas, queda dos níveis dos rios e aumento do risco de queimadas. No semiárido nordestino, a preocupação é com a possibilidade de precipitações abaixo da média durante a estação chuvosa.
Primavera será período-chave
Para os meteorologistas, os próximos meses serão fundamentais para acompanhar a evolução do aquecimento do Pacífico. A expectativa é que a influência do fenômeno se fortaleça gradualmente durante o inverno, mas os impactos mais perceptíveis para a população ocorram a partir da primavera.
“É na primavera que normalmente começamos a observar uma resposta mais clara da atmosfera ao El Niño. Se o aquecimento continuar se intensificando como indicam os modelos, os efeitos poderão se tornar bastante expressivos durante o verão de 2027”, afirma Suganuma.
A intensidade final do fenômeno ainda dependerá da evolução das temperaturas do oceano nos próximos meses. No entanto, os principais centros de monitoramento climático do mundo concordam que o atual episódio tem potencial para figurar entre os mais significativos das últimas décadas.



