Garrafas PET, embalagens de alimentos, plásticos descartáveis e bitucas de cigarro voltaram a ser recolhidos aos milhares de praias, rios e manguezais na última semana. Ao mesmo tempo em que voluntários participaram do Dia Mundial da Limpeza, pesquisadores reunidos na Rio Ocean Week, no Rio de Janeiro, discutiram uma questão que começa muito antes da faixa de areia: de onde vem esse lixo e como impedir que ele chegue ao mar.
A dimensão brasileira do problema aparece em alguns números. Segundo o professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, cada brasileiro descarta, em média, 16 quilos de plástico por ano no meio ambiente. Aproximadamente 80% do lixo que chega aos mares tem origem em atividades terrestres e em falhas nos sistemas de saneamento e gestão de resíduos sólidos.
A poluição marinha foi justamente o tema central da Rio Ocean Week 2026, realizada entre 17 e 20 de setembro no Museu do Amanhã. Um dos primeiros debates recebeu um título direto: “Lixo no mar: chegou a hora da faxina”. Outro foi dedicado ao que já não pode ser recolhido facilmente em um mutirão: os microplásticos.
A faxina começa longe da praia
O plástico representa cerca de 80% do lixo marinho e afeta a biodiversidade, a cadeia alimentar e atividades econômicas ligadas ao litoral. No ambiente, animais podem ingerir os resíduos ou ficar presos neles. Com a ação do sol, das ondas e do tempo, objetos maiores também se fragmentam em partículas cada vez menores, formando os microplásticos.
Para Turra, por isso, tão importante quanto retirar o lixo é descobrir o que está sendo retirado.
“Analisar criticamente os resíduos que elas estão pegando, procurando entender o que é, de onde veio e como combater. Embora muitos produtos sejam feitos de plástico, eles têm diferentes origens, diferentes caminhos, diferentes soluções”, afirmou o pesquisador.
O professor aponta os grandes centros urbanos entre os principais pontos de geração do lixo que alcança rios e mares e relaciona o problema também à desigualdade de renda e à capacidade dos municípios de administrar seus resíduos. Pequenas cidades litorâneas enfrentam ainda a pressão provocada pelo aumento da população durante períodos turísticos.
A análise ajuda a tirar a poluição dos oceanos da faixa de areia. Um plástico abandonado em uma cidade distante do litoral pode alcançar um córrego, seguir para um rio e terminar no oceano. O cuidado com o mar, portanto, passa também pelos bueiros, rios, saneamento e sistemas de coleta das cidades.
Do oceano para o organismo
Há ainda uma parte dessa poluição que não pode mais ser vista a olho nu. Os microplásticos têm menos de 5 milímetros e podem resultar tanto da fragmentação de resíduos maiores quanto do desgaste de pneus, lavagem de tecidos sintéticos, cosméticos, embalagens e até da poeira urbana.
Essas partículas já foram encontradas na fauna marinha, em alimentos e em diferentes tecidos do corpo humano. O que a ciência tenta responder agora é quais consequências essa exposição pode produzir ao longo do tempo.
Três pesquisas publicadas em 2026 ajudam a dimensionar essa nova frente de investigação.
Na Itália, pesquisadores analisaram o sangue das artérias coronárias de 61 pessoas submetidas a angiografia. Micro e nanoplásticos foram detectados com maior frequência e em maior quantidade entre pacientes que haviam sofrido infarto agudo do miocárdio do que entre pessoas com doença coronariana crônica e participantes com artérias coronárias normais. A presença das partículas também apareceu associada a marcadores inflamatórios, exposição à poluição atmosférica e tabagismo. O estudo, publicado em julho no European Heart Journal, é observacional e, portanto, não demonstra que o plástico tenha provocado os infartos.
Outra pesquisa acompanhou 1.750 pares de mães e bebês e analisou microplásticos presentes nas placentas. Publicado em janeiro na revista Ecotoxicology and Environmental Safety, o trabalho encontrou associação entre maior exposição a determinadas partículas e redução no peso e no comprimento dos recém-nascidos. Os pesquisadores destacam que se trata de uma associação e que são necessários novos estudos para compreender os mecanismos envolvidos.
O cérebro também entrou nessa investigação. Um estudo publicado em abril na Nature Health analisou 156 amostras de tecidos de pacientes com tumores cerebrais e outras 35 de cérebros de cinco doadores sem a doença. Micro e nanoplásticos foram encontrados em 99,4% das amostras dos pacientes e em 100% das amostras dos doadores. A concentração foi maior em tecidos próximos aos tumores, mas os próprios pesquisadores ressaltam que ainda não é possível estabelecer uma relação causal entre as partículas e o câncer.
Os resultados ajudam a explicar por que os microplásticos ocuparam um painel inteiro da Rio Ocean Week. A ciência já sabe que essas partículas conseguem atravessar barreiras do organismo e chegar a diferentes tecidos. O que ainda está sendo investigado é quanto dessa exposição representa risco à saúde e quais doenças podem estar relacionadas a ela.
Limpar e descobrir de onde veio
É nesse contexto que o Dia Mundial da Limpeza ganha uma segunda função. Além de retirar resíduos, os mutirões permitem pesar, separar e catalogar o material encontrado. Garrafas, embalagens, redes, bitucas e fragmentos podem fornecer pistas sobre a origem da poluição e ajudar na formulação de políticas públicas.
“Embora muitos produtos sejam feitos de plástico, eles têm diferentes origens, diferentes caminhos, diferentes soluções; e isso leva a gente a entender o papel que a gente acaba tendo nesse processo. Passa por entender que muitas dessas mudanças que precisam acontecer são medidas estruturantes, dependem da legislação”, afirma Turra.
A programação da Rio Ocean Week seguiu exatamente esse caminho. Além da retirada do lixo já presente nos oceanos, os debates abordaram redução da geração de plástico, saneamento básico, esgoto sem tratamento, contaminação química e formas de impedir que os resíduos produzidos em terra alcancem os ambientes aquáticos.



