As rajadas de vento que ultrapassaram os 120 km/h e provocaram cinco mortes, suspensão de voos, paralisação de portos e transtornos em diversas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul não foram causadas pelo El Niño, apesar de o fenômeno climático estar ativo neste ano.
Segundo meteorologistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o episódio foi resultado da combinação de três fatores atmosféricos que atuaram ao mesmo tempo: um cavado próximo ao litoral paulista, uma intensa corrente de ventos carregada de umidade vinda da Amazônia e o avanço de uma frente fria pelo Sul e Sudeste.
O cavado é uma área de baixa pressão atmosférica que favorece a formação de nuvens, chuva e instabilidade. Ao mesmo tempo, uma corrente de ventos em altitude transportava grande quantidade de umidade da Amazônia em direção ao Centro-Sul do Brasil. Quando esse fluxo encontrou a circulação do cavado, a atmosfera ficou ainda mais instável.
A situação se intensificou com a chegada de uma frente fria. Antes dela, o Sudeste enfrentava temperaturas excepcionalmente elevadas para o inverno. No Rio de Janeiro, por exemplo, os termômetros chegaram a 35,8°C, enquanto Santos registrou 35,2°C e Guarujá 34°C. A entrada brusca de uma massa de ar frio sobre esse ambiente muito quente criou um forte contraste térmico, responsável por acelerar o deslocamento do ar e gerar ventos extremamente intensos.
O que é a “linha de rajada”?
Além da frente fria, outro fenômeno chamou a atenção dos meteorologistas: a formação de uma linha de rajada.
Ela funciona como a “onda de choque” produzida pela chegada do ar frio. Em entrevista ao Globo, o pesquisador Marcelo Seluchi, do Cemaden, comparou o fenômeno à frente de uma grande quantidade de água derramada sobre o chão: a borda avança rapidamente antes do restante. Na atmosfera acontece algo semelhante. O ar frio desce com força, espalha-se horizontalmente e produz rajadas muito intensas, geralmente antes mesmo da chuva começar.
Foi justamente essa linha de rajada que levou ventos violentos ao litoral paulista, à Região Metropolitana de São Paulo, ao Vale do Paraíba, ao Rio de Janeiro e também ao Rio Grande do Sul, onde a frente fria já havia provocado temporais, granizo e vendavais.
Tem relação com as mudanças climáticas?
Nenhum evento isolado pode ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas. No entanto, especialistas apontam que um planeta mais quente aumenta a energia disponível na atmosfera, intensificando o contraste entre massas de ar quente e frio e favorecendo episódios de chuva intensa, tempestades e ventos extremos.
Embora o mecanismo meteorológico que provocou os ventos seja conhecido e faça parte da dinâmica natural da atmosfera, o aquecimento global tende a tornar esses eventos mais intensos e potencialmente mais destrutivos.



