As ondas de calor têm danificado a infraestrutura urbana em países europeus, provocando deformações em pavimentos e trilhos ferroviários. Em outras partes do mundo, enchentes e secas severas destroem cidades. Eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes são uma preocupação para a construção civil, que precisa investir em tecnologias para deixar a infraestrutura mais resistente.
De asfalto modificado a soluções baseadas na natureza, o setor está preparado para enfrentar essa realidade, segundo o vice-presidente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Nilson Sarti. O desafio, de acordo com ele, é dar escala a essas tecnologias.
“Hoje, contamos com asfaltos modificados, concretos de alto desempenho, pavimentos mais refletivos, materiais de maior durabilidade e soluções baseadas na natureza, que ajudam a reduzir a temperatura das cidades e a aumentar a vida útil das estruturas. O desafio agora é ampliar a escala dessas soluções.”
No caso de enchentes, a estratégia indicada por especialistas é mudar a lógica urbana. Tornar o solo mais permeável, para que, em vez de expulsar a água o mais rápido possível, ela seja retida e infiltre. Esse é o caminho, segundo o professor Joni Matos Incheglu, do curso de Engenharia Civil da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
“A mesma cidade que sofre com enchentes repentinas, meses depois, vive crise hídrica, o que demanda projetá-las para enfrentar os dois extremos ao mesmo tempo, com respostas bem estruturadas da engenharia”, afirma Joni Matos
A reavaliação de limites das construções é outro ponto de cuidado apontado pelo professor. Isso porque muitas normas técnicas que dão base à segurança foram calibradas a partir de séries históricas de clima. No entanto, eventos que tratavam-se como excepcionais passam a ocorrer com mais frequência e magnitude.
“O que demanda reavaliar os limites e revisitar as premissas de projeto, como os tempos de retorno adotados para chuvas de dimensionamento da drenagem, as velocidades de vento, a estabilidade de encostas e taludes e o comportamento das fundações em solos saturados”, acrescenta.
Outro desafio é cuidar do edificado existente, de acordo com o professor da UMC. “A inspeção predial periódica e programas de manutenção e reforço estrutural são fundamentais, identificando a fragilidade antes que o evento extremo a transforme em acidente. A isso, soma-se a execução de projetos de drenagem à altura do novo padrão de chuvas e, talvez, o mais importante: não adianta construir mais forte no lugar errado, sem planejamento territorial. Muitas tragédias são de localização, não de estrutura. Reavaliar critérios é reavaliar também onde se pode e onde não se pode ocupar”.
Uma terceira frente é o monitoramento e da informação, com sensores e instrumentação de encostas e estruturas, gêmeos digitais e o uso de BIM no planejamento, que permitem antecipar problemas em vez de remediá-los.
Na opinião de Incheglu, ciência, tecnologia e engenharia são capazes de reduzir drasticamente os danos de um El Niño intenso. “Colocar esse aparato no centro do planejamento das cidades, e não apenas na resposta ao desastre, é a decisão mais importante que podemos tomar diante do que vem pela frente”, conclui.



