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Congestionamentos custam mais de R$ 100 bi por ano e enchentes podem agravar colapso; veja entrevista

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Os congestionamentos geram prejuízos superiores a R$ 100 bilhões por ano no mundo, segundo estimativas baseadas em estudos da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Para o especialista em mobilidade urbana Alex Carreiro, os eventos climáticos extremos registrados cada vez com mais frequência no país tendem a agravar ainda mais esse cenário, sobretudo em cidades que já enfrentam problemas estruturais de circulação.

Em entrevista ao Portal Reconstruções, Carreiro afirma que os impactos provocados por enchentes e desastres naturais vão muito além dos transtornos no trânsito. Quando pontes são destruídas, avenidas ficam interditadas ou corredores viários são interrompidos, toda a dinâmica urbana é afetada.

“Estamos falando da interrupção do acesso ao trabalho, à educação, à saúde e aos serviços essenciais. Em muitos casos, a mobilidade passa a ser um dos principais obstáculos para a própria reconstrução da cidade”, afirma.

Segundo ele, a situação vivida por Ubá após as enchentes históricas de fevereiro ilustra esse desafio. Além dos danos às moradias e à infraestrutura urbana, a cidade passou a conviver com interdições viárias, alterações no trânsito e perda de importantes conexões urbanas.

“O caso de Ubá mostra exatamente isso. Uma cidade que já enfrentava crescimento da frota e dificuldades de circulação passa a conviver com a perda de infraestrutura crítica. O resultado é o aumento dos congestionamentos, do tempo de deslocamento e dos custos sociais e econômicos para a população”, avalia.

Para o especialista, a reconstrução não pode se limitar à simples reposição das estruturas destruídas pelas chuvas.

“É necessário reconstruir com mais resiliência, criando rotas alternativas, fortalecendo o transporte coletivo e incorporando a adaptação climática ao planejamento urbano”, defende.

Carreiro afirma que esse raciocínio vale não apenas para grandes capitais, mas também para municípios de médio porte como Ubá e Juiz de Fora. Segundo ele, um dos principais erros das políticas de mobilidade nas últimas décadas foi deixar de considerar a experiência do usuário na formulação das soluções.

“O conceito central é simples: as pessoas deixam de utilizar o transporte coletivo quando ele deixa de ser competitivo em relação às demais opções de deslocamento”, afirma.

Na avaliação do especialista, cidades menores possuem até mesmo algumas vantagens para implementar melhorias, já que as distâncias são menores e os investimentos necessários tendem a ser mais modestos.

“Melhorar frequência, confiabilidade, integração e qualidade da experiência do usuário pode produzir resultados relevantes em um prazo relativamente curto. O que muda é a escala. Os princípios permanecem os mesmos: colocar o usuário no centro das decisões e construir um sistema que seja atrativo, eficiente e sustentável.”

Mobilidade deve fazer parte da reconstrução

Para Carreiro, uma das lições deixadas pelos desastres climáticos recentes é que a mobilidade precisa ser incorporada desde o início às estratégias de recuperação das cidades.

Ele defende que, nos momentos imediatamente posteriores a uma tragédia, a prioridade dos gestores públicos deve ser garantir a conectividade mínima dos municípios.

“Isso exige atuação integrada entre mobilidade, defesa civil, obras e planejamento urbano”, afirma.

O especialista alerta, porém, para o risco de reconstruir a infraestrutura exatamente da mesma forma que ela existia antes do desastre.

“Muitas cidades reconstruíram pontes, vias e sistemas exatamente da mesma forma que existiam antes e acabaram reproduzindo as mesmas vulnerabilidades.”

Segundo ele, a reconstrução oferece uma oportunidade rara de modernizar sistemas urbanos, diversificar rotas de deslocamento e aumentar a capacidade de adaptação das cidades frente aos eventos climáticos extremos que tendem a se tornar mais frequentes.

“A mobilidade não pode ser tratada apenas como consequência da reconstrução. Ela precisa ser parte da estratégia de reconstrução desde o primeiro dia.”

Diagnóstico sobre o transporte coletivo

As reflexões apresentadas por Carreiro também estão reunidas no livro “A Reconquista do Passageiro: Por que o transporte coletivo brasileiro entrou em colapso e o método para reconstruí-lo”, que será lançado no próximo dia 25 de junho, em Brasília.

Na obra, o especialista sustenta que a crise do transporte coletivo não é resultado inevitável do crescimento urbano, mas consequência de escolhas políticas, econômicas e urbanísticas que priorizaram o transporte individual ao longo das últimas décadas.

Entre os conceitos apresentados está a chamada “espiral de degradação”, processo em que a perda de passageiros reduz a arrecadação dos sistemas, provoca aumentos tarifários, piora a qualidade dos serviços e afasta ainda mais usuários do transporte público.

Para o autor, enfrentar os congestionamentos, reduzir emissões e tornar as cidades mais resilientes passa necessariamente pela recuperação da atratividade do transporte coletivo e pela compreensão de que mobilidade urbana é infraestrutura essencial para o funcionamento das cidades.

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