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Calor extremo eleva consumo de energia em 40% e pressiona alimentos; setor de bebidas vende mais

Onda de calor impacta de forma diferente setores da economia. Foto Washington Alves/Light Press
Onda de calor impacta de forma diferente setores da economia. Foto Washington Alves/Light Press


Sem entrar no mérito dos impactos na saúde da população e no abastecimento de água, que não são poucos, a onda de calor que atinge Minas Gerais se reflete de forma diferente em diversos setores da economia. Enquanto bebidas refrescantes, sorvetes e climatização registram aumento da demanda, o calor pressiona o consumo de energia e traz desafios para segmentos como alimentos e café. Os efeitos também chegam à logística, com a necessidade de responder rapidamente às mudanças no comportamento do consumidor.

No Estado, 623 municípios estão sob alerta vermelho do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), classificação de grande perigo. Em Belo Horizonte, a maior temperatura de 2026 foi registrada no último domingo (27/9), quando os termômetros chegaram a 35,6°C, segundo a Defesa Civil municipal, que aponta a possibilidade de um novo recorde ainda nesta semana.

Mais calor, mais consumo de energia – O coordenador de Energia da FIEMG, Sérgio Pataca, diz que, nas residências, um dos principais impactos está no maior uso do ar-condicionado, embora outros aparelhos possam ter potência superior, a climatização pesa pelo tempo de funcionamento.

“O chuveiro pode ter uma potência maior, mas fica ligado por poucos minutos. Já o ar-condicionado pode funcionar por oito horas ou até durante toda a noite. Em períodos de muito calor, esse uso pode aumentar o consumo residencial entre 30% e 40% e, dependendo da intensidade, chegar a dobrá-lo”, explica Pataca.

O reflexo também pode aparecer diretamente no orçamento das famílias. “Se considerarmos uma referência de R$1 por hora, um ar-condicionado ligado durante oito horas por noite pode representar cerca de R$240 a mais no mês. É uma estimativa, porque o valor depende muito do equipamento, da eficiência e do tempo de funcionamento”, ressalta.

No comércio e na indústria, o impacto varia conforme a atividade e a necessidade de climatização ou refrigeração. Empresas de alimentos e do setor farmacêutico, por exemplo, podem precisar manter sistemas de controle de temperatura funcionando por períodos prolongados.

A maior utilização dos equipamentos também aquece o mercado de serviços. Segundo Caio Alexandre Evangelista, instrutor de Formação Profissional de Refrigeração e Climatização do SENAI Américo René Giannetti, na Lagoinha, o período de altas temperaturas amplia significativamente a procura por profissionais especializados.

“Nesse período, há um aumento médio de 150% nas solicitações de manutenção e instalação de condicionadores de ar. O mercado para profissionais técnicos em refrigeração e climatização sempre foi muito bom e, neste momento, está em forte expansão, com uma demanda altíssima”, afirma Evangelista.

O crescimento da utilização, porém, exige atenção à eficiência. Segundo o instrutor, reduzir excessivamente a temperatura do aparelho não faz com que o ambiente seja climatizado mais rapidamente e pode aumentar o esforço do equipamento. “O ideal é ajustar o termostato para 24°C, garantindo conforto térmico. Assim, minimizamos o consumo de energia elétrica e aumentamos a vida útil dos condicionadores de ar”, orienta Evangelista.

A instalação e a manutenção feitas por profissionais qualificados também são importantes para o desempenho dos sistemas. O SENAI Américo René Giannetti oferece formação na área de Refrigeração e Climatização para atender à demanda do mercado.

Bebidas geladas e sorvetes avançam, enquanto café exige atenção – Na indústria de alimentos e bebidas, o calor produz efeitos distintos. Para o presidente da Câmara da Indústria de Alimentos e Bebidas da FIEMG, Vinícius Dantas, bebidas, sucos, cervejas, sorvetes e gelatos estão entre os produtos favorecidos pelas temperaturas elevadas. “São oportunidades para a indústria de alimentos, principalmente a indústria de bebidas, sucos e a indústria de sorvete”, afirma Dantas.

A mudança rápida no consumo, no entanto, exige resposta além das linhas de produção. Segundo Dantas, a indústria avançou em mecanização, tecnologia e embalagens, mas precisa acompanhar os picos de demanda com capacidade de distribuição. Em períodos de calor intenso, colocar o produto próximo ao consumidor e preservar sua qualidade e segurança ao longo do transporte tornam a logística parte central da estratégia.

O setor de sorvetes também já sente o avanço das temperaturas. Segundo o presidente do Sindsorvete-MG, Wander Bertolace, a diversificação de produtos, sabores e modelos de negócio reduziu a sazonalidade do mercado, embora o verão continue concentrando o pico das vendas. As indústrias aproveitam os meses mais frios para manutenção, investimentos e treinamento das equipes, preparando a capacidade produtiva para o período de maior procura.

“De julho para agosto, já tivemos um aumento de mais de 30% e, de agosto para setembro, os números devem ficar entre 30% e 40%. Se as temperaturas continuarem como estão e não houver chuvas intensas, no pico do verão o consumo pode ficar entre 70% e 75% acima dos meses de maio, junho, julho e agosto”, afirma Bertolace.

No setor de bebidas, o superintendente do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (SindBebidas-MG), Cristiano Lamego, aponta uma relação direta entre temperatura e vendas, com base em levantamento da Scanntech.

“A cada 1°C de aumento na temperatura média, o volume de vendas das bebidas mais sensíveis ao calor cresce, em média, 4,1%. Em episódios de calor atípico, com temperaturas entre 3°C e 5°C acima da média, as projeções e os registros do setor em Minas Gerais indicam crescimento de 12% a 20% no volume de vendas em comparação aos períodos de temperatura normal”, destaca Lamego.

Águas, isotônicos, energéticos, refrigerantes e cervejas estão entre as categorias mais beneficiadas. No caso da cerveja, a sensibilidade ao calor é ainda mais evidente. “Nas ondas de calor, a cerveja se destaca não apenas pelo crescimento em volume, mas também pela contribuição financeira para o faturamento do setor. Cada 1°C adicional pode representar aproximadamente 5% de aumento nas vendas da categoria”, afirma Lamego.

O calor, porém, não beneficia todas as categorias de bebidas. Segundo Cristiano Lamego, produtos mais associados a temperaturas amenas ou frias tendem a perder espaço no carrinho durante os dias mais quentes. “Os vinhos podem apresentar retração próxima de 10%, enquanto bebidas destiladas tendem também  a registrar queda no consumo durante períodos de calor intenso”, afirma o superintendente do SindBebidas-MG.

Se algumas categorias ganham impulso, outras exigem atenção. Chocolates, bebidas achocolatadas, café, pão e vinho são alguns dos produtos que podem ser prejudicados pelas altas temperaturas. No café, o impacto começa ainda na produção da matéria-prima.

Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Café de Minas Gerais (Sindicafé-MG), Sérgio Meirelles, o calor intenso aumenta a perda de água pelas folhas dos cafeeiros e pode comprometer a floração. O momento exige atenção porque o período mais indicado para o plantio ocorre entre outubro e dezembro, acompanhando a estação chuvosa.

Depois da colheita, o controle das condições de armazenamento também é fundamental para preservar a qualidade dos grãos. “Normalmente o cafeicultor vai beneficiando e transfere os cafés para armazéns e cooperativas e, como é um produto de alto valor agregado, não é recomendado mantê-lo nas propriedades”, explica Meirelles.

Os diferentes impactos mostram que o calor altera mais do que os hábitos de consumo. Para a indústria mineira, temperaturas extremas influenciam os custos de energia, demanda, conservação, matéria-prima e logística, exigindo respostas diferentes de acordo com cada atividade.

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