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Isolados desde enchente, moradores improvisam pinguela e se arriscam para ir ao trabalho e à escola

Pinguela construída pela comunidade do Fazendinha. Foto: Reprodução de vídeo
Pinguela construída pela comunidade do Fazendinha. Foto: Reprodução de vídeo

Comunidade construiu passagem improvisada após meses de espera. Enquanto moradores enfrentam esgoto e risco de quedas, obra da nova ponte está parada e prefeitura não explica motivo da interrupção.

Por Aline de Almeida

Todas as manhãs, crianças, idosos, trabalhadores e ciclistas repetem o mesmo ritual no bairro Fazendinha, em Ubá. Para chegar à escola, ao trabalho, ao posto de saúde ou ao comércio, muitos atravessam uma estreita pinguela de madeira construída pelos próprios moradores sobre o rio. Debaixo dos pés, água, lama e esgoto. Ao redor, a lembrança de uma enchente que mudou a rotina da comunidade e de uma reconstrução que, meses depois, continua sem chegar.

A passagem improvisada não foi construída pelo poder público. Foi uma iniciativa da própria população, cansada de esperar.

“A população aguardou um ou dois meses para ver o que a prefeitura faria. Como nada aconteceu, os próprios moradores se reuniram e fizeram a pinguela. Era o único jeito de continuar levando as crianças para a escola, os idosos ao posto de saúde e as pessoas ao trabalho”, conta Wellington de Souza Dias, estudante de Medicina, morador da Fazendinha e autor do vídeo enviado ao Portal Reconstruções.

Segundo ele, a estrutura improvisada representa um risco permanente.

“É uma condição totalmente insalubre. O esgoto sem tratamento passa por ali e, em alguns trechos, precisamos pisar na água do esgoto para conseguir atravessar.”

Durante o estágio realizado no posto de saúde do bairro, Wellington afirma ter atendido moradores que se machucaram justamente durante a travessia.

“Recebemos pessoas que caíram tentando passar pela pinguela. Algumas tiveram ferimentos e precisaram de atendimento.”

Uma hora de caminhada

Quem decide não utilizar a passagem improvisada enfrenta outro desafio.

Sem a ponte, o caminho seguro exige uma longa volta pelos bairros Rosa de Toledo, Santa Edwiges e Antonina Coelho. Para quem está de carro ou motocicleta, o percurso leva cerca de cinco a dez minutos. Mas, para quem depende exclusivamente de caminhar, a realidade é outra.

“Um idoso pode levar cerca de uma hora para chegar ao posto de saúde. É pensando nessas pessoas que falamos desse tempo. Não é apenas uma questão de distância. É de condição física, de dignidade”, relata Wellington.

Segundo ele, a maioria dos moradores da Fazendinha pertence às classes C e D e depende da caminhada ou da bicicleta para se locomover.

“Eu consigo fazer esse trajeto de carro ou de moto, mas grande parte dos meus vizinhos não tem essa opção. Eles dependem dessa passagem improvisada todos os dias.”

Obra começou, mas parou

A Prefeitura de Ubá iniciou, em maio, a reconstrução da ponte que liga os bairros Fazendinha, Rosa de Toledo, Cidade Nova e Habitat II. O investimento anunciado foi de R$ 1,02 milhão e o prazo de execução é de até 180 dias. A obra inclui a reconstrução da estrutura e contenções com gabiões.

No entanto, moradores relatam que os trabalhos estão paralisados há algumas semanas.

Em reportagem publicada anteriormente pelo Portal Reconstruções, o vice-prefeito de Ubá informou que a empresa responsável interrompeu os serviços enquanto aguarda a formalização de um aditivo contratual. Desde então, a Prefeitura não divulgou previsão para a retomada da obra nem esclareceu quando o aditivo será concluído.

O Portal Reconstruções voltou a procurar a Prefeitura de Ubá para informar quais alterações motivaram o aditivo, quando ele deverá ser assinado e qual é a nova previsão para conclusão da ponte. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. Caso o município se manifeste, o texto será atualizado.

“Queremos apenas voltar a ter dignidade”

Para Wellington, o sentimento predominante entre os moradores é o de invisibilidade.

“Somos um bairro mais afastado e temos a impressão de que não somos prioridade. As obras parecem acontecer primeiro onde há mais visibilidade. Foi por isso que decidi mostrar essa realidade. Quero ajudar a devolver a dignidade aos meus vizinhos.”

Procuramos a Prefeitura de Belo Horizonte pedindo um posicionamento, mas não obtivemos retorno. Enquanto a resposta não chega, a rotina continua a mesma.

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