Receba nossas notícias

Porto Alegre moderniza comportas e reforça sistema contra cheias antes dos efeitos do El Niño

Estrutura móvel de proteção da comporta 12 do sistema de proteção contra cheias. Foto: PMPA/Divulgação
Estrutura móvel de proteção da comporta 12 do sistema de proteção contra cheias. Foto: PMPA/Divulgação

Porto Alegre entrou em uma nova etapa da reconstrução do seu sistema de proteção contra cheias. O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) instalou a nova estrutura móvel de proteção da comporta 12, localizada no dique da Avenida Castelo Branco, e prepara também a instalação da comporta 11. As duas passagens fazem parte do sistema que tenta impedir a entrada da água em áreas urbanas durante episódios de elevação do Guaíba e de seus afluentes.

A obra ocorre em um momento simbólico e estratégico. Pouco mais de dois anos depois da inundação histórica de 2024, o Rio Grande do Sul volta a se preparar para um período de maior atenção climática, com risco de cheias no fim do ano e possível influência do El Niño sobre o regime de chuvas no Sul do país.

A lembrança de 2024 ainda é recente. A maior tragédia climática da história gaúcha deixou 185 mortos, 23 desaparecidos e atingiu 478 municípios do Rio Grande do Sul. Mais de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas direta ou indiretamente pelas enchentes, que provocaram deslocamentos em massa, destruição de casas, interrupção de serviços públicos e danos severos à infraestrutura urbana.

Em Porto Alegre, a inundação expôs fragilidades no sistema de proteção contra cheias, composto por diques, comportas, casas de bombas, condutos forçados e estruturas de contenção. A modernização da comporta 12, portanto, não é uma obra isolada: ela integra um esforço mais amplo de reconstrução e adaptação climática da capital gaúcha.

Segundo o diretor-presidente do Dmae, Vicente Perrone, a nova estrutura foi projetada a partir das lições deixadas pela cheia histórica de 2024. “Além de suportar uma carga hidrodinâmica superior à da estrutura anterior, com base em um projeto elaborado após a cheia histórica de 2024, o novo equipamento contará com um sistema de fechamento mais moderno”, afirmou.

Ainda de acordo com Perrone, a mudança deve tornar a operação mais eficiente em situações de emergência. “Com isso, a operação será mais rápida, mais segura e demandará menos esforço humano”, explicou o diretor-presidente do Dmae.

Na prática, esse tipo de intervenção é decisivo porque o tempo de resposta faz diferença em uma enchente. Comportas são pontos de fechamento do sistema de proteção. Quando o nível da água sobe, elas precisam ser acionadas rapidamente para impedir que o rio avance por passagens, galerias ou acessos urbanos. Quanto mais eficiente e seguro for o fechamento, menor o risco de falhas operacionais em momentos críticos.

A comporta 11, que também está em fase de modernização, deve ser instalada em seguida, permitindo o primeiro teste de fechamento das duas novas barreiras de proteção. A expectativa é que o conjunto aumente a capacidade de resposta da cidade em caso de elevação do nível das águas.

Nos últimos dois anos, mais de R$ 11 milhões foram investidos na modernização das comportas de Porto Alegre. Das 14 passagens existentes em 2024, oito foram substituídas por estruturas permanentes em concreto armado: as comportas 3, 5, 7, 8, 9, 10, 13 e 14. Essas passagens haviam sido concebidas originalmente para facilitar o acesso ao porto, mas tiveram sua utilização reduzida ao longo dos anos e passaram a representar pontos de vulnerabilidade no sistema.

Outras quatro comportas — 1, 2, 4 e 6 — passaram por modernização completa, incluindo o recondicionamento das estruturas de concreto armado junto ao Muro da Mauá. As barreiras móveis de aço foram submetidas à usinagem e receberam novas peças fabricadas sob medida. O objetivo das intervenções é ampliar a eficiência do sistema na contenção da água durante eventuais episódios de cheia.

A instalação das comportas 11 e 12 marca, portanto, uma tentativa de corrigir fragilidades que ficaram evidentes na catástrofe de 2024. Em uma cidade protegida por diques e dependente de fechamento rápido de acessos, qualquer ponto vulnerável pode comprometer a segurança de bairros inteiros.

A modernização das comportas, porém, é apenas uma parte do esforço de reconstrução climática de Porto Alegre. A prefeitura também mantém obras nos pôlderes 7 e 8, entre os bairros Anchieta e Sarandi, na Zona Norte. A intervenção prevê a construção de um dique de 100 metros entre o Arroio Passo das Pedras e o Rio Gravataí, além da instalação de um sistema móvel de fechamento das galerias que ligam o Arroio Areia ao manancial. O investimento é de R$ 47 milhões, com previsão de conclusão até o fim de agosto.

Também estão em fase final as obras de proteção nos condutos forçados Álvaro Chaves, Polônia, Miguel Couto e Areia. Nesta etapa, o Dmae trabalha na instalação de novas tampas herméticas, responsáveis pela vedação das estruturas. A previsão é que esses serviços sejam concluídos até o fim de julho.

Na Usina do Gasômetro, no Centro Histórico, a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura trabalha na contratação de correções pontuais no prédio para proteger a estrutura em caso de nova cheia do Guaíba. As obras já foram iniciadas e devem ser concluídas até o fim de agosto.

Outra frente considerada essencial é a proteção da Estação de Bombeamento de Água Bruta Moinhos de Vento. A unidade passa por obras para corrigir falhas que permitiram a entrada da água durante a cheia histórica de 2024. A previsão é de conclusão ainda em julho.

As casas de bombas também estão no centro da estratégia. Porto Alegre trabalha na elaboração dos projetos executivos para obras de resiliência climática em várias Estações de Bombeamento de Águas Pluviais. Parte das bombas verticais será substituída por modelos submersíveis, mais adequados para operação em situações extremas. Os painéis de comando serão elevados, e geradores de energia deverão ser instalados de forma permanente nas unidades.

Essa mudança é importante porque, em uma enchente, não basta impedir que a água do rio entre na cidade. É preciso também conseguir bombear a água da chuva que cai dentro da área protegida. Se as casas de bombas falham, ficam sem energia ou são invadidas pela própria cheia, o sistema perde capacidade de escoamento justamente no momento mais crítico.

A prefeitura também informou que segue executando obras de dupla alimentação de energia nas estações de bombeamento dos bairros Sarandi e Anchieta. A medida busca garantir mais segurança operacional, reduzindo o risco de paralisação das bombas em caso de falha no fornecimento elétrico. As casas de bombas 6, 9, 10, 20 e 21 fazem parte da etapa atualmente contratada junto à CEEE Equatorial, com conclusão prevista para novembro.

Nos diques, os trechos 1 e 2 do Dique do Sarandi já tiveram a reconstrução concluída, somando 1,5 quilômetro de estrutura com cota superior a 5,8 metros em relação ao Rio Gravataí. Também foram realizadas intervenções no dique junto à sede da Fiergs e no Muro da Mauá, no Centro Histórico, que passou por revisão estrutural e correção das patologias identificadas.

O conjunto dessas obras mostra uma mudança de paradigma que outras cidades brasileiras também precisarão enfrentar: reconstruir depois de uma enchente não significa apenas reparar o que quebrou. Significa revisar sistemas inteiros, identificar pontos vulneráveis, elevar estruturas críticas, automatizar operações, garantir energia para equipamentos essenciais e planejar cenários mais extremos do que aqueles considerados no passado.

No caso gaúcho, o alerta climático reforça a urgência. As chuvas extremas de 2024 mostraram que sistemas de proteção precisam ser pensados para eventos cada vez mais intensos. Com a possibilidade de influência do El Niño sobre as chuvas no Sul do país, obras como a modernização das comportas ganham caráter preventivo: não são apenas reparos do passado, mas preparação para o próximo período de risco.

Para Porto Alegre, a conclusão das comportas e o avanço das obras de proteção chegam como uma corrida contra o tempo. O sistema que falhou em 2024 precisa estar mais preparado antes do próximo ciclo de chuvas intensas. A modernização das barreiras não elimina o risco de novas cheias, mas pode reduzir vulnerabilidades e dar mais capacidade de resposta à cidade.

A tragédia gaúcha deixou uma lição dura para o país: sistemas de drenagem, diques, comportas e casas de bombas não são obras invisíveis ou secundárias. Eles formam a infraestrutura que separa uma chuva forte de uma catástrofe urbana. Em tempos de eventos extremos mais frequentes, a manutenção e a modernização dessas estruturas passam a ser parte central da política de reconstrução e adaptação climática.

PUBLICIDADE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PUBLICIDADE