
Reprodução de TV

Washington Alves/Light Press

Arquivo pessoal
Patrimônio afetivo e comercial de Ubá, o Calçadão Deputado Ibrahim Jacob, na Rua São José, atravessa mais um período de dificuldades poucos meses após a enchente que devastou a região central da cidade. Enquanto as obras de reconstrução seguem na etapa de recomposição das redes de água e esgoto, comerciantes ouvidos pela reportagem relatam queda de até 80% nas vendas desde o início das intervenções, em maio.
Um dos comerciantes afetados é André Luiz da Silva, proprietário da lojas de acessórios para celular e eletrônicos que leva seu nome, André Acessórios e Eletrônicos. Depois de perder mais de R$ 1 milhão durante a enchente de fevereiro, ele conseguiu reabrir as portas e reconstruir parte do estoque. Agora, afirma enfrentar um novo desafio: a falta de clientes.
“Depois da enchente ainda dava para as pessoas passarem. Agora não passa quase ninguém. O movimento caiu muito”, afirma.
A situação tem um peso especial para o comerciante. No dia 24 de fevereiro, quando a enchente atingiu o Centro de Ubá, André estava dentro de uma das lojas. A data marcaria a retomada das atividades após um mês de reformas e ampliação do espaço.

Ele havia ampliado a área da loja, reforçado o estoque e contratado seis funcionários. Quando a água começou a subir, tentou salvar parte da mercadoria, mas precisou abandonar o imóvel para preservar a própria vida.
“Eu achei que a água não ia subir tão rápido. Tentei salvar as mercadorias, mas chegou uma hora que tive que salvar minha vida.”
Segundo ele, o estoque incluía cerca de 189 mil capinhas para celular, 25 mil películas de proteção e milhares de carregadores e acessórios. O prejuízo estimado ultrapassou R$ 1 milhão.
Nos meses seguintes, André precisou reconstruir o negócio praticamente do zero. Hoje, calcula ter recuperado apenas parte do estoque perdido. Apesar do esforço, diz que a recuperação esbarra na falta de movimento provocada pelas obras.
“A obra precisa ser feita. O problema é que você passa aqui e quase não vê gente trabalhando.”
Na avaliação do comerciante, o cenário atual chega a ser mais difícil para quem depende das vendas diárias do que os meses imediatamente posteriores à enchente.
“Hoje o calçadão está pior do que estava depois da enchente. O comércio precisa da obra, mas também precisa de rapidez.”
O sentimento é compartilhado por outros comerciantes da região.
Dono de uma loja de roupas na Rua São José, Roniel Pinto Lucas, afirma que as vendas também caíram cerca de 80% desde o início das intervenções. Para ele, a lentidão dos trabalhos tem agravado as dificuldades de quem ainda tenta se recuperar dos prejuízos provocados pela enchente.
“A obra é necessária, mas o ritmo está muito lento. Você passa aqui e quase não vê gente trabalhando. O movimento praticamente desapareceu”, afirma.
A recuperação do negócio acontece após meses particularmente difíceis para a família. Durante a enchente, ele perdeu praticamente todo o estoque da loja. Mas a maior perda foi pessoal.
Na madrugada da inundação, o comerciante encontrou o irmão na região central enquanto tentavam chegar ao estabelecimento para salvar parte das mercadorias. No caminho, o irmão parou para ajudar um casal que enfrentava a força da correnteza.
“Ele falou que iria ajudar e voltaria. Foi a última vez que eu o vi.”
O corpo de Alex Pinto Lucas, 39 anos, que faria 40 anos dia 29 de abril, foi encontrado apenas dias depois, próximo a Visconde do Rio Branco, a quilômetros de distância do local onde desapareceu. Ele foi um dos oito mortos na enchente de fevereiro em Ubá.
“Eu perdi a loja, perdi o carro, mas o que menos me preocupava naquele momento era isso. A loja a gente reconstrói. O mais difícil foi perder meu irmão.”
Quase quatro meses depois, ele conseguiu reabrir o estabelecimento e retomou as atividades. Agora, porém, diz enfrentar um novo obstáculo. “A gente reconstruiu a loja, mas o movimento sumiu. Hoje o desafio é conseguir vender.”
O que prevê a obra
As obras de reconstrução do Calçadão Deputado Ibrahim Jacob tiveram início em 15 de maio e têm previsão de conclusão em 2 de novembro de 2026. O investimento previsto é de R$ 1,25 milhão, com recursos do Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano e repasses da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil.
Além da recuperação dos danos causados pela enchente, o projeto prevê a implantação de piso intertravado acessível, piso tátil, rampas de acessibilidade, ampliação da drenagem pluvial, instalação de iluminação em LED, paisagismo, mobiliário urbano, como bancos e lixeiras, e a construção de um quiosque.
Segundo a Prefeitura de Ubá, a intervenção tem como objetivo recuperar a infraestrutura urbana e revitalizar um dos espaços mais tradicionais do comércio ubaense.
Apesar disso, comerciantes ouvidos pela reportagem afirmam que a duração das obras e a redução da circulação de pedestres têm dificultado a recuperação econômica da região e cobram maior agilidade na execução dos trabalhos.



