Passados pouco mais de 100 dias da enchente histórica que devastou Ubá, grande parte das obras de reconstrução em andamento no município pode estar desperdiçando uma oportunidade rara de tornar a cidade mais preparada para enfrentar eventos climáticos extremos. A avaliação é da arquiteta e urbanista Naiara Nascimento, pós-graduada em Paisagismo e integrante do coletivo Reconstruir Ubá, um grupo de profissionais independentes que acompanha as obras de recuperação de Ubá.
Segundo ela, embora o prefeito José Damato tenha sancionado a Lei “Cidade-Esponja”, o que se observa na prática é uma reconstrução que reproduz o mesmo modelo urbano que contribuiu para agravar os impactos das enchentes. A lei prevê um modelo urbano que busca ampliar a infiltração da água da chuva por meio de áreas verdes, jardins de chuva, pavimentos drenantes e recuperação de cursos d’água naturais.
“O que está sendo feito é uma reconstrução reproduzindo o que já existia. Dá-se uma nova iluminação, muda-se algum elemento visual, mas sem incorporar de fato os conceitos que hoje orientam o planejamento urbano sustentável”, afirma.
Para Naiara, o principal exemplo dessa contradição é o projeto de revitalização do Calçadão Deputado Ibrahim Jacob.
Discurso e projeto não conversam

Divulgado pela administração municipal como uma das intervenções inseridas no contexto da reconstrução e da modernização dos espaços públicos, o projeto prevê novo paisagismo, mobiliário urbano e pavimentação intertravada.
Na avaliação da arquiteta, porém, a proposta não incorpora os elementos fundamentais de uma cidade-esponja.
“O piso intertravado tem alguma permeabilidade, mas está muito longe de ser uma solução drenante. O projeto não apresenta jardins de chuva, áreas de retenção de água ou estruturas capazes de acomodar os volumes de chuva que atingem aquela região”, afirma.
A crítica se torna ainda mais relevante diante da localização do Calçadão, uma das áreas mais suscetíveis a alagamentos da região central de Ubá. Durante as chuvas registradas nesta semana, imagens compartilhadas por moradores mostraram novamente o espaço tomado pela água, em uma cena que lembrou os dias posteriores à enchente de fevereiro.
Para Naiara, a obra poderia ter aproveitado a reconstrução para alterar profundamente a dinâmica daquele espaço.
“Ali já não é uma via voltada para o tráfego intenso de veículos. Seria possível criar um grande canteiro central, jardins de chuva ou até um parque linear capaz de absorver e armazenar parte da água das precipitações. Em vez disso, optou-se por uma solução muito próxima do que já existia”, analisa.
Tendência mundial segue direção oposta
A arquiteta destaca que cidades de diversos países têm adotado justamente o caminho contrário ao seguido historicamente por Ubá.
Em vez de ampliar áreas impermeáveis, a tendência é remover concreto e asfalto, recuperar a capacidade de infiltração do solo e renaturalizar rios e córregos.
“Hoje existem projetos de desimpermeabilização urbana. A lógica é devolver espaço para a água, permitir que ela infiltre no solo e reduzir o volume que chega rapidamente aos rios. Durante décadas fizemos exatamente o contrário”, explica.
Segundo ela, embora o volume de chuva que atingiu Ubá em fevereiro tenha sido extraordinário, parte dos danos foi agravada por intervenções urbanas acumuladas ao longo dos anos.
“O desastre teria ocorrido de qualquer forma por causa da intensidade da chuva. Mas os impactos foram potencializados por escolhas urbanísticas feitas ao longo do tempo.”
Oportunidade perdida
A avaliação de Naiara não se limita ao Calçadão. Para ela, outras áreas destruídas pela enchente também poderiam estar sendo reconstruídas com foco na adaptação climática.
Um exemplo citado é a Avenida Beira-Rio.
Segundo a arquiteta, a necessidade de reconstrução das margens do Ribeirão Ubá poderia abrir espaço para uma reconfiguração urbana mais ampla, com ampliação das áreas verdes e maior espaço para acomodação das águas durante períodos de cheia.
“A Beira-Rio tinha potencial para ser repensada. Existem trechos com duas pistas em cada sentido e áreas de estacionamento que poderiam ser revistas. Mas a opção foi reconstruir praticamente o que já existia.”
Ela considera que a atual fase de investimentos representa uma oportunidade difícil de ser repetida.
“Estamos diante de um volume de recursos incomum. Se nem agora medidas de prevenção forem incorporadas aos projetos, quando serão?”
Mudanças podem chegar pela legislação
Apesar das críticas às obras em andamento, Naiara vê com bons olhos a revisão do Plano Diretor e do Código de Obras anunciada pela Prefeitura.
Segundo ela, a expectativa é que os novos textos incorporem exigências relacionadas à drenagem urbana, retenção de águas pluviais e aumento da permeabilidade dos terrenos.
O problema, segundo a arquiteta, é o tempo.
“Essas mudanças são importantes, mas dependem de estudos, audiências públicas e tramitação legislativa. Enquanto isso, as obras emergenciais estão sendo executadas agora.”
Para ela, a principal pergunta que ficará para o futuro é se Ubá aproveitará a tragédia de 2026 para se tornar uma cidade mais resiliente ou se apenas reconstruirá as estruturas que já demonstraram suas limitações diante das mudanças climáticas.
“Quando você reconstrói exatamente da mesma forma, está apenas preparando o cenário para enfrentar os mesmos problemas novamente”, conclui.




Respostas de 3
“Excelente abordagem sobre o
impacto ambiental que nossa cidade enfrentou. As medidas atuais parecem estar focadas apenas na reconstrução dos danos causados, sem um planejamento adequado para preparar a cidade para futuros eventos climáticos!”
Top! Excelente análise!
Está na hora das autoridades competentes, ouvir opiniões de profissionais competentes e atualizados com as mudanças tanto no clima quanto nas tendências arquitetônicas. Nossa cidade tem profissionais competentes e comprometidos com a reestruturação dos danos causados pelas chuvas ocorridas em fevereiro/2026. Exemplo da arquiteta Naiara,
que esplanou claramente o que tem que ser feito.