Em apenas 39 segundos, a Venezuela foi atingida por dois terremotos de grande magnitude que transformaram bairros inteiros em montanhas de escombros. O primeiro abalo, de magnitude 7,2, foi seguido quase imediatamente por um segundo, de 7,5, considerado o mais forte registrado no país em mais de um século. O fenômeno, conhecido como terremoto duplo ou doblete sísmico, é raro e pode tornar um desastre ainda mais devastador.
Até a tarde desta quinta-feira (25), o governo venezuelano havia confirmado ao menos 188 mortes, mais de 1.500 feridos e centenas de pessoas soterradas, enquanto equipes de resgate continuavam as buscas em meio a dezenas de réplicas. A presidente interina, Delcy Rodríguez, decretou estado de emergência em todo o país.
Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal, Delcy pediu união diante da tragédia.
“Expressamos nossas condolências às famílias das vítimas e decretamos estado de emergência para mobilizar todos os recursos necessários à resposta”, afirmou a presidente, ao anunciar que hospitais, forças de segurança e equipes de resgate permaneceriam mobilizados nas áreas atingidas.
O que torna esse terremoto diferente?
Na maioria dos grandes terremotos, um forte tremor é seguido por réplicas menores, que ocorrem à medida que a crosta terrestre se acomoda.
Na Venezuela, porém, isso não aconteceu.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o país foi atingido por um “doublet”, uma sequência incomum em que dois terremotos principais, com magnitudes semelhantes, ocorrem praticamente ao mesmo tempo.
“O terremoto principal de magnitude 7,5 foi precedido por um evento de magnitude 7,2 apenas 39 segundos antes”, informou o USGS em sua análise técnica do evento.
Na prática, significa que o segundo terremoto atingiu edifícios que já haviam sido danificados pelo primeiro, aumentando drasticamente o risco de colapsos estruturais.
Por que isso aumenta tanto os danos?
Imagine um prédio que sofreu rachaduras profundas durante o primeiro tremor. Antes que moradores consigam deixar o local ou que a estrutura tenha tempo para dissipar os esforços, um segundo terremoto, ainda mais intenso, sacode novamente a construção.
É justamente esse efeito em cascata que torna os terremotos duplos especialmente perigosos.
Além disso, o segundo abalo dificulta as operações de resgate, interrompe evacuações e amplia o número de edificações condenadas.
A infraestrutura também faz diferença
Embora a força da natureza seja inevitável, especialistas lembram que o tamanho da tragédia depende também da vulnerabilidade das cidades.
A Venezuela enfrenta há anos uma grave crise econômica, que comprometeu investimentos em infraestrutura e reduziu a capacidade de resposta dos serviços públicos. Segundo a Reuters, o cenário dificultou o trabalho das equipes de emergência logo nas primeiras horas após os tremores, com estradas danificadas, interrupções no fornecimento de energia e dificuldades de comunicação.
O chefe da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou que centenas de pessoas ainda permaneciam presas sob os escombros.
“Estamos em uma corrida incansável contra o tempo para resgatar a maioria delas com vida”, declarou.
Já o coordenador de ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas, Tom Fletcher, alertou que o terremoto agrava uma crise humanitária que já existia antes do desastre.
“Mesmo antes desses terremotos, quase oito milhões de pessoas na Venezuela já precisavam de assistência humanitária. Este desastre corre o risco de aprofundar vulnerabilidades já existentes”, afirmou.
O que essa tragédia ensina?
Embora o Brasil não esteja localizado em uma zona de grandes terremotos, o episódio traz um aprendizado que vale para qualquer tipo de desastre natural.
A intensidade do fenômeno é apenas parte da equação. A resistência das edificações, os planos de emergência, os sistemas de alerta e a preparação das cidades determinam quantas vidas serão perdidas e quanto tempo será necessário para reconstruir.
No caso da Venezuela, o raro terremoto duplo mostrou que, quando um segundo evento extremo acontece antes que o primeiro tenha terminado de produzir seus efeitos, a vulnerabilidade das construções se torna ainda mais evidente.
Para cidades que convivem com enchentes, deslizamentos ou outros eventos extremos, a principal lição permanece a mesma: reconstruir não significa apenas recuperar o que foi destruído, mas criar condições para que o próximo desastre provoque menos perdas humanas, sociais e econômicas.



