Quando se fala em reconstrução após um desastre climático, a imagem mais comum é a de máquinas, obras de engenharia e infraestrutura sendo refeitas. Mas especialistas e gestores públicos defendem que reconstruir uma cidade exige algo menos visível, embora igualmente essencial: fortalecer os laços entre as pessoas, o território e a própria capacidade da comunidade de enfrentar novas crises.
Essa visão esteve no centro dos debates do encontro Cidades Verdes e Cultura: Conexões Brasil-China para Territórios Sustentáveis, realizado recentemente em Brasília, que reuniu representantes do Ministério da Cultura, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério das Cidades, da Universidade de Brasília (UnB) e de instituições chinesas para discutir como a cultura pode fortalecer a resiliência das cidades diante das mudanças climáticas.
Mais do que promover atividades artísticas, a proposta defendida pelos participantes é transformar equipamentos culturais em espaços de mobilização comunitária, educação ambiental e desenvolvimento sustentável, capazes de apoiar a população antes, durante e depois de eventos extremos.
Segundo a subsecretária de Espaços e Equipamentos Culturais do Ministério da Cultura, Cecília Sá, a cultura pode desempenhar um papel decisivo nesse processo porque ajuda a criar conexões entre as pessoas e o território.
“A cultura ajuda a conectar soluções e imaginar novos caminhos para enfrentar os impactos das mudanças climáticas”, afirma. Para ela, fortalecer a dimensão cultural da reconstrução significa também reconstruir vínculos entre as pessoas, a cidade e a natureza, valorizando saberes locais e ampliando a participação social na construção das soluções.
Na avaliação da subsecretária, a própria crise climática revela uma dificuldade de percepção coletiva sobre os desafios ambientais.
“A crise climática também é uma crise de percepção. Precisamos fortalecer o pertencimento e a capacidade das comunidades de reconhecer e transformar seus territórios.”
Um dos desafios, entretanto, é a própria distribuição dos equipamentos culturais pelo país. Dados apresentados pelo Ministério da Cultura mostram que apenas 9% dos municípios brasileiros possuem cinema, enquanto 23% contam com teatros, 29% têm museus e apenas 39% dispõem de centros culturais.
A proposta do governo federal é adaptar esses espaços para que também funcionem como polos de sustentabilidade e resiliência, incorporando soluções como energia solar, captação de água da chuva, tecnologias sociais, infraestrutura verde e iniciativas voltadas ao fortalecimento da economia criativa local.
Essa estratégia faz parte de uma iniciativa do Ministério da Cultura que busca transformar equipamentos culturais em polos de resiliência climática, sustentabilidade e mobilização comunitária, ampliando sua função para além da programação artística.
Essa integração entre cultura e meio ambiente também é defendida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Para a coordenadora-geral do Departamento de Educação Ambiental e Cidadania, Isis Morimoto, enfrentar a crise climática exige mudanças que vão além das intervenções físicas nas cidades.
“Não adianta falar apenas de adaptação e mitigação. São necessárias mudanças culturais profundas sobre o futuro que queremos construir.”
Segundo ela, a cooperação entre diferentes áreas do poder público é fundamental para fortalecer a capacidade de adaptação dos municípios e preparar as cidades para os impactos cada vez mais frequentes dos eventos climáticos extremos.
A mesma lógica vale para as políticas urbanas. O diretor do Departamento de Mitigação e Prevenção de Risco da Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, Rodolfo Baesso, defende que as soluções precisam nascer das características de cada território.
“Não queremos soluções importadas para as periferias. Queremos soluções que tenham a cara dos territórios e sejam construídas com as pessoas que vivem neles.”
A ideia é combinar infraestrutura com soluções baseadas na natureza e participação comunitária, reconhecendo que a população local conhece melhor do que ninguém os desafios e as potencialidades de cada região.
O debate, mediado por Marcella Arruda, do Instituto A Cidade Precisa de Você, também reforçou que políticas culturais podem articular preservação ambiental, geração de oportunidades econômicas e valorização das comunidades, aproximando desenvolvimento sustentável e participação cidadã.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, resumiu essa visão ao defender que a cultura ocupa um papel central na transformação da sociedade diante da emergência climática.
“A cultura é sim uma ferramenta de conscientização desse momento que a humanidade tá passando.”



