Barcelona começou a transformar parte de suas ruas em uma infraestrutura urbana pensada para um clima mais quente. No bairro Eixample, uma das áreas mais conhecidas e adensadas da cidade, a prefeitura iniciou a conversão de trechos das ruas Consell de Cent, Rocafort, Comte Borrell e Girona em novos eixos verdes, com a criação de quatro praças em cruzamentos antes ocupados majoritariamente por carros. A intervenção, segundo a empresa municipal BIMSA, ligada à Prefeitura de Barcelona, prevê o ganho de seis hectares de espaço para pedestres e a multiplicação por 12 da área verde urbana nesses trechos.
A mudança mais simbólica está no chão: o asfalto desaparece. No novo desenho urbano, as ruas passam a funcionar em plataforma única, com prioridade para pedestres, áreas de permanência, mobiliário urbano, nova iluminação e pavimentos de panot e granito. A justificativa oficial é climática: em plena emergência climática, a retirada do asfalto é apresentada como uma medida necessária para reduzir a temperatura das ruas e evitar a formação de ilhas de calor.

O projeto também prevê o plantio de mais de 400 árvores e a implantação de extensas áreas de vegetação. Nos cruzamentos, onde antes predominava o espaço para circulação de veículos, surgem praças e pequenas áreas de convivência, com brinquedos infantis e bancos para descanso. A ideia é que a rua deixe de ser apenas local de passagem e volte a funcionar como espaço de encontro, sombra, permanência e convivência urbana.
A iniciativa integra o programa das Superilles, ou superquadras, modelo adotado por Barcelona para reduzir o protagonismo do automóvel e reorganizar o espaço público em favor de pedestres, ciclistas, transporte público e áreas verdes. A então prefeita Ada Colau defendeu, à época, que o projeto do Eixample não era improvisado, mas a ampliação de um modelo já testado em Sant Antoni, classificado por ela como um “êxito rotundo” e como um modelo desejado para todos os bairros da cidade.
A vice-prefeita de Ecologia, Urbanismo, Infraestrutura e Mobilidade, Janet Sanz, também explicou que a transformação passa por reduzir a lógica de atravessar a cidade de ponta a ponta de carro. Segundo ela, “a ideia de cruzar a cidade de ponta a ponta com um veículo precisa ir desaparecendo”. Nos novos eixos verdes, a circulação de veículos fica limitada principalmente a moradores, serviços e emergências, em baixa velocidade.
Mais do que uma intervenção paisagística, o caso de Barcelona mostra como cidades vêm incorporando soluções urbanas para enfrentar os efeitos da crise climática. Árvores, canteiros, solos mais permeáveis e áreas sombreadas ajudam a reduzir a temperatura, melhorar o conforto térmico, reter parte da água da chuva e diminuir a dependência de superfícies impermeáveis.
O próprio Plano de Infraestrutura Verde e Biodiversidade de Barcelona trata o verde urbano como uma infraestrutura essencial, capaz de prestar serviços ambientais e sociais, como regulação da temperatura, infiltração da água da chuva, absorção de poluentes, redução de ruído e melhoria da qualidade de vida.

Essa lógica também aparece nos planos climáticos da cidade. Barcelona inclui adaptação, resiliência, justiça climática e ação cidadã entre os eixos de sua estratégia para enfrentar o aquecimento global. A cidade também passou a tratar a ampliação do verde urbano como parte da resposta ao calor, à poluição e à necessidade de tornar o espaço público mais saudável.
Estudos sobre os eixos verdes de Barcelona apontam que o plano busca transformar parte das ruas do Eixample em corredores com mais árvores, vegetação, sistemas sustentáveis de drenagem urbana, restrição ao tráfego motorizado e ambientes mais seguros para pedestres, ciclistas e atividades sociais. Nas interseções, antigas áreas de tráfego dão lugar a praças e jardins urbanos.
O exemplo dialoga diretamente com o debate sobre reconstrução e adaptação climática em cidades brasileiras. Em municípios que convivem com enchentes, ilhas de calor e excesso de impermeabilização, como ocorre em diferentes regiões de Minas Gerais, a substituição de superfícies asfaltadas por áreas sombreadas, vegetadas e mais permeáveis pode deixar de ser uma escolha estética para se tornar uma política pública de prevenção.
Barcelona mostra que reconstruir uma cidade não significa apenas refazer ruas e calçadas como eram antes. Em meio a eventos climáticos cada vez mais extremos, a pergunta passa a ser outra: como transformar o espaço urbano para que ele absorva melhor a água, reduza o calor e proteja melhor as pessoas?



