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Após perdas de R$ 60 milhões, pólo moveleiro se recupera e defende investimentos estruturantes em prevenção de enchentes

O presidente do Intersind, Gilberto Coelho. Foto: Intersind/Divulgação
O presidente do Intersind, Gilberto Coelho. Foto: Intersind/Divulgação

Gilberto Coelho faz um balanço da reconstrução do terceiro maior polo moveleiro do Brasil e afirma que a união entre empresários, trabalhadores e instituições permitiu a retomada das 47 indústrias atingidas, apesar dos prejuízos superiores a R$ 60 milhões

Praticamente todas as 47 indústrias atingidas pela enchente de fevereiro já retomaram as operações, afirma o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá (Intersind), Gilberto Coelho, em entrevista ao Portal Reconstruções. Cinco meses após o desastre, o setor começa a deixar para trás a fase mais crítica da tragédia, que provocou prejuízos superiores a R$ 60 milhões e atingiu em cheio o terceiro maior polo moveleiro do Brasil.

A água invadiu galpões industriais, destruiu estoques, comprometeu máquinas e equipamentos e provocou danos à infraestrutura de dezenas de fábricas. Mas os impactos foram muito além dos portões das empresas. A paralisação parcial da produção afetou fornecedores, transportadoras, prestadores de serviço, comerciantes e milhares de trabalhadores, ampliando os reflexos da tragédia sobre toda a economia regional.

“A enchente trouxe um grande impacto para o nosso polo moveleiro, mas também mostrou a força da união entre empresários, trabalhadores e instituições. Diversas empresas sofreram danos, mas, graças ao esforço conjunto, praticamente todas conseguiram retomar suas operações e conseguimos preservar empregos. Algumas ainda enfrentam dificuldades financeiras”, disse Coelho.

A realidade difere da enfrentada pelo comércio de Ubá, em que 9 em cada dez estabelecimentos foram atingidos. Cerca de 10% deles não vão retornar, segundo a Aciubá, associação do setor. E muitos ainda permanecem fechados, especialmente na avenida Beira-Rio e no Calçadão da rua São José, onde a reconstrução segue a passos lentos.

Hoje, o polo moveleiro reúne empresas distribuídas por 26 municípios da Zona da Mata — Astolfo Dutra, Cataguases, Descoberto, Divinésia, Dona Euzébia, Dores do Turvo, Goianá, Guarani, Guidoval, Guiricema, Leopoldina, Mercês, Piraúba, Paula Cândido, Rio Novo, Rio Pomba, Rodeiro, São Geraldo, São João Nepomuceno, Senador Firmino, Silverânia, Tabuleiro, Tocantins, Ubá, Viçosa e Visconde do Rio Branco — consolidando-se como um dos principais polos industriais de Minas Gerais.

“A enchente mostrou a força da união”

Trabalhadores organizam doações em fábrica de Ubá

Gilberto Coelho destacou a grande capacidade de reação do setor nesses últimos cinco meses.

Segundo ele, empresas, entidades e instituições se mobilizaram rapidamente, e isso foi determinante para que o polo retomasse sua produção em um intervalo relativamente curto, evitando consequências ainda mais severas para a economia regional.

A tragédia também entrou na casa dos trabalhadores

O levantamento realizado pelo Intersind mostrou que os efeitos da enchente ultrapassaram os limites das fábricas.

Foram identificados 204 trabalhadores diretamente afetados, o que representa aproximadamente 450 pessoas em seus núcleos familiares. As maiores necessidades eram móveis, eletrodomésticos e itens essenciais.

“Esse levantamento permitiu direcionar as doações e garantir que a ajuda chegasse rapidamente às famílias”, disse Gilberto Coelho, do Intersind.

A experiência vivida em fevereiro também mudou a forma como o setor enxerga o futuro. Segundo Coelho, além de incentivar práticas ambientais responsáveis e a capacitação das empresas, o Intersind passou a defender investimentos estruturantes para tornar Ubá mais resiliente diante das mudanças climáticas.

“Também passamos a defender investimentos em prevenção e infraestrutura, para que Ubá esteja cada vez mais preparada para enfrentar eventos climáticos extremos”, disse ele.

Reconstruir empresas também significa reconstruir empregos

Em seminário realizado em maio, a presidente da FIEMG Regional Zona da Mata e do Sindivest JF-GV, Mariângela Marcon, disse que recuperar as indústrias significava preservar toda a cadeia econômica da região.

“Quando uma tragédia se abate sobre uma cidade, ela não afeta apenas estruturas físicas. Ela compromete toda uma cadeia produtiva, impactando empresas, empregos, renda, fornecedores, transportadoras, comércio e serviços. Por isso, a reconstrução precisa ser pensada de forma ampla e estratégica.”

Ela destaca que a Fiemg coordenou uma ampla mobilização durante a crise, reunindo apoio humanitário às famílias atingidas e assistência técnica às empresas. Equipes especializadas do Senai atuaram diretamente na recuperação de máquinas, equipamentos e sistemas produtivos, contribuindo para acelerar o retorno das atividades industriais.

Para Mariângela, a reconstrução não pode se limitar à reposição das perdas.

“Ubá não precisa apenas voltar ao que era. Precisa voltar mais forte, mais preparada e mais competitiva. A recuperação econômica deve ser encarada como uma oportunidade de modernização, inovação e fortalecimento do setor produtivo.”

Da garagem ao galpão: a história de quem decidiu recomeçar

A trajetória da Plena Estofados ajuda a traduzir a realidade vivida por muitas empresas do polo moveleiro.

Fundada há cerca de cinco anos por Luiz Alexandre Rodrigues, a fábrica começou na garagem da casa do empresário, produzindo poucos sofás por semana. Com o crescimento da demanda, ampliou a estrutura, passou a ocupar um galpão de aproximadamente 700 metros quadrados e chegou a empregar 17 funcionários diretos, além de manter 12 costureiras externas, integrando a cadeia produtiva do polo.

A enchente interrompeu esse processo de expansão.

“Perdemos praticamente todas as máquinas e grande parte da matéria-prima, como espuma, fibra e tecidos. Também tivemos prejuízo com cerca de 80 sofás que estavam prontos para entrega, avaliados entre R$ 120 mil e R$ 125 mil”, conta Rodrigues.

Mesmo diante das perdas, a empresa decidiu recomeçar. Com apoio recebido durante a crise, conseguiu um galpão emprestado e iniciou a recuperação das máquinas que ainda podem ser restauradas.

“É um momento muito difícil, porque vínhamos em um processo de crescimento e geração de empregos. Mesmo assim, seguimos tentando reconstruir a empresa e voltar a produzir o quanto antes.”

A história da Plena reflete o espírito que marcou a recuperação do setor: empresas que perderam quase tudo, mas encontraram na solidariedade e na cooperação a força necessária para voltar a produzir. (Com informações da Fiemg)

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