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Angústia e medo: crise climática já afeta saúde mental dos brasileiros, mostra pesquisa da Natura

Cenário de guerra na avenida Cristiano Roças, em Ubá. Foto: Washington Alves/Light Press
Cenário de guerra na avenida Cristiano Roças, em Ubá. Foto: Washington Alves/Light Press

Pesquisa da Natura e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo identificou níveis de moderados a altos de sofrimento relacionado à degradação ambiental; 44,7% dos participantes apresentaram sinais de ansiedade

A crise climática e a degradação ambiental já produzem efeitos mensuráveis sobre a saúde mental dos brasileiros. Um estudo realizado pela Natura em parceria com a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo identificou níveis de moderados a altos de sofrimento emocional relacionado às mudanças no ambiente. Entre os mais de 1,7 mil participantes, 44,7% apresentaram pontuação acima do limiar clínico para ansiedade.

A pesquisa investigou sentimentos associados à chamada solastalgia, termo usado para definir a angústia provocada pela degradação ou transformação do ambiente onde uma pessoa vive. Em uma escala de 1 a 5, a média brasileira ficou em 3,90, considerada de moderada a alta. Outro resultado chama a atenção: 88% dos participantes demonstraram preocupação com o desaparecimento definitivo de elementos únicos da natureza.

O levantamento faz parte do Projeto Apoena, iniciativa da Natura voltada à investigação das relações entre alterações ambientais, bem-estar e saúde mental. A pesquisa foi realizada com participantes dos 27 estados brasileiros e também resultou na validação da primeira versão brasileira da Brief Solastalgia Scale, instrumento científico utilizado para medir esse tipo de sofrimento.

A Natura havia anunciado o início do estudo em julho de 2025. Na ocasião, Tatiana Ponce, vice-presidente de Marketing e líder de Pesquisa e Desenvolvimento da Natura e Avon, relacionou diretamente os efeitos das mudanças climáticas às perdas e aos medos vivenciados pela população.

“Lidamos com perdas, medos, angústias e um sentimento de impotência enorme diante da magnitude dos efeitos das mudanças climáticas em nossas vidas.”

Segundo a executiva, a diversidade de ecossistemas e a intensidade das pressões ambientais fazem do Brasil um território importante para compreender como essas transformações interferem no bem-estar mental da população.

Sudeste está entre as regiões com maior sofrimento

As maiores pontuações de solastalgia foram observadas em áreas urbanizadas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. O resultado é associado pelos pesquisadores à exposição da população a diferentes pressões ambientais, entre elas poluição, queimadas e eventos climáticos extremos.

É um dado que ganha relevância especial em territórios que passaram recentemente por desastres. Em cidades da Zona da Mata mineira atingidas pelas enchentes de fevereiro, como Ubá e Juiz de Fora, a reconstrução ocorre enquanto moradores ainda convivem com as consequências do evento e com a possibilidade de novas chuvas intensas.

A solastalgia ajuda a explicar uma dimensão menos visível desse processo. Diferentemente da saudade provocada por estar longe de um lugar, ela ocorre quando a pessoa continua vivendo naquele território, mas percebe que o ambiente conhecido foi degradado ou transformado. O conceito pode estar relacionado a sentimentos de perda, tristeza, impotência e insegurança.

Quando lançou o Projeto Apoena, a Natura destacou justamente o crescimento das catástrofes climáticas como uma das razões para investigar o fenômeno no país. O estudo também avaliou ecoansiedade e depressão, além de hábitos de consumo sustentável e possíveis relações entre indicadores emocionais e biomarcadores presentes na voz.

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