Encontro reuniu experiências de municípios brasileiros e latino-americanos sobre adaptação climática, infraestrutura e preparação para eventos extremos
Sete meses depois da catástrofe que deixou 66 mortos na cidade, Juiz de Fora recebeu representantes de cidades brasileiras e latino-americanas para discutir como preparar os municípios para eventos climáticos extremos e reconstruir territórios reduzindo riscos futuros. Entre os dias 9 e 11 de setembro, a cidade sediou a 9ª Escola de Resiliência de Mercocidades.
A escolha de Juiz de Fora colocou no centro do encontro a experiência recente de uma cidade ainda em processo de reconstrução. Na abertura, no Mercado Municipal, a prefeita Margarida Salomão afirmou que os impactos de uma tragédia não terminam com a recuperação das estruturas atingidas.
“É uma lição muito dura que nós fomos forçados a aprender. Mesmo que consigamos superar as grandes cicatrizes físicas, o impacto social, psicológico, cognitivo, cultural nas cidades é, de fato, um trauma difícil de esquecer. A tarefa da resiliência não é apenas a da reconstrução, mas também da preparação para a emergência climática que tem se manifestado em toda parte do mundo”, disse.
Para a prefeita, a discussão também precisa ultrapassar os limites do município. “Não podemos fechar o tema apenas em Juiz de Fora. É importante que nós tenhamos uma discussão internacional. Este evento é parte da tarefa de compartilhar experiências, para que possamos aprender uns com os outros e estarmos de certa forma em condições de enfrentar o que certamente virá.”
Da reconstrução à prevenção
A Escola de Resiliência integra o Programa de Cooperação Sul-Sul da Mercocidades e foi realizada em parceria com a Rede de Cidades Resilientes (R-Cities), com participação também do ICLEI América do Sul.
O encontro reuniu representantes de municípios para discutir planejamento urbano, infraestrutura, mudanças climáticas e desigualdades. Nesta edição, o tema foi “Infraestrutura para construir cidades cuidadoras, seguras e resilientes – Integrando a perspectiva de gênero ao planejamento e gestão urbana”.
Entre as experiências apresentadas estiveram projetos brasileiros que usam soluções de adaptação às mudanças climáticas. Belo Horizonte apresentou sua participação no Mecanismo de Seguro de Infraestrutura Urbana (UIIF), enquanto Curvelo levou ao encontro a iniciativa Curvelo + Verde e Resiliente, criada para incorporar soluções baseadas na natureza ao planejamento urbano.
Também participaram das discussões representantes de cidades como Contagem, Niterói, São Lourenço do Sul, São Paulo, Quilmes, na Argentina, e Rosário, além de Juiz de Fora. O debate buscou identificar como a infraestrutura urbana pode ser planejada para proteger moradores, ecossistemas e serviços essenciais diante de enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos.
Tragédias que mudam o planejamento
Representando o prefeito de Niterói e presidente de Mercocidades, Rodrigo Neves, o secretário-executivo da rede, Felipe Peixoto, lembrou que a cidade fluminense também passou por uma tragédia provocada pelas chuvas.
“As mudanças climáticas estão batendo às nossas portas. Todo ano nós teremos uma chuva de grandes proporções. Aconteceu esse ano em Juiz de Fora. Há 16 anos, Niterói sofreu sua maior tragédia na história e, até hoje, estamos reconstruindo a nossa cidade, preparando e tornando nossa cidade resiliente para lidar com as mudanças climáticas”, afirmou.
Segundo Peixoto, Mercocidades reúne atualmente quase 500 cidades, do Uruguai ao México, e funciona como espaço de intercâmbio de experiências entre governos locais.
O coordenador da Secretaria Técnica Permanente de Mercocidades, Jorge Rodriguez, também destacou a preparação das cidades diante de eventos que tendem a se repetir.
“As mudanças climáticas não vão parar. Lamentavelmente, as notícias e os acontecimentos são uma realidade que vivemos. Mas, se podemos nos preparar, se podemos aprender e se podemos nos recuperar, estaremos mais preparados para enfrentar essas situações e nos recuperar delas”, afirmou.
Soluções aplicadas às cidades
A programação incluiu uma mesa sobre infraestrutura e resiliência com Javier Garduño, diretor para a América Latina da R-Cities; Rodrigo Perpétuo, secretário-executivo do ICLEI América do Sul; e Leticia Sibinelli, do Global Covenant of Mayors for Climate and Energy – LATAM. A discussão foi mediada pela secretária de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Juiz de Fora, Aline de Rocha Junqueira.
Nos três dias de atividades, os participantes trabalharam conceitos e ferramentas para identificar riscos, definir estratégias e buscar soluções aplicáveis aos municípios. Um Laboratório de Resiliência permitiu que representantes das cidades partissem de problemas concretos para construir propostas e apresentá-las aos demais participantes.
No último dia, o grupo realizou uma visita ao Morro do Imperador, em Juiz de Fora. A proposta foi relacionar os conceitos discutidos durante a Escola às condições encontradas no território.
A edição também faz parte de uma parceria entre o ICLEI América do Sul e a Rede Mercocidades que prevê a construção de posicionamentos de governos locais e regionais para o ciclo de conferências internacionais sobre biodiversidade e clima previsto para o segundo semestre de 2026
No caso de Niterói, após a emergência vivenciada há mais de duas décadas, a prefeitura respondeu com um plano estratégico abrangente que integra defesa civil, tecnologia, projetos de infraestrutura, preservação de áreas verdes e capacitação da comunidade. Essas experiências, juntamente com as de muitas outras cidades participantes, foram compartilhadas e debatidas durante a capacitação.
Como parte da Escola, as delegações também realizaram uma visita técnica ao Morro de Cristo, uma colina muito próxima da cidade, que foi severamente afetada por fortes chuvas em fevereiro de 2026. Visitamos algumas das áreas afetadas e discutimos o projeto de contenção para prevenir futuros desastres.
As sessões incluíram contribuições de organizações parceiras da Mercocidades, que apresentaram recursos focados na mitigação e adaptação às mudanças climáticas, bem como conteúdo específico sobre planejamento e gestão da resiliência urbana. A Rede de Cidades Resilientes (coorganizadora da Escola), o ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade e o Pacto Global de Prefeitos para o Clima e a Energia (GCoM) também acompanharam a atividade.
Próximos passos
Aproximadamente 30 representantes de governos locais da Argentina, Brasil, México e Uruguai participaram do treinamento. Após a conclusão da Escola, os participantes têm 10 dias para entregar um projeto final. Esses projetos são avaliados por um comitê que seleciona até três casos para receber apoio (passagens internacionais e hospedagem) para fortalecer suas estratégias locais de resiliência por meio de assistência técnica e/ou intercâmbio de experiências em cidades latino-americanas.
A Escola de Resiliência faz parte do Programa de Cooperação Sul-Sul da Mercocidades e é organizada anualmente pela Mercocidades e pela Rede de Cidades Resilientes.



