Pesquisa detalha como eventos climáticos interferem da produção ao preço dos alimentos e aprofundam desigualdades já existentes
No Sudeste, são as enchentes e inundações, mais do que as secas, que aparecem como a principal ameaça climática à segurança alimentar. Elas são apontadas por 62% dos especialistas ouvidos em um estudo sobre mudanças climáticas, alimentação e desigualdade no Brasil, principalmente pelos danos à infraestrutura de transporte e pelas perdas na distribuição de alimentos.
É um efeito que começa antes de a comida chegar ao supermercado. A chuva extrema pode destruir uma lavoura, interromper uma estrada ou derrubar uma ponte. Pode atingir estoques e dificultar o transporte. Com menos produto disponível ou um caminho mais caro até os pontos de venda, o impacto chega ao consumidor na forma de preço. Para quem já compromete uma parcela maior da renda com alimentação, essa cadeia pesa ainda mais.
“A fome induzida pelo clima no Brasil não é um problema estritamente técnico ou de produtividade agrícola; é um problema econômico, político e de direitos humanos. As famílias mais vulneráveis já comprometem a maior parte de seu orçamento com comida. Quando um evento extremo destrói estradas ou reduz safras regionais, o repasse de custos é imediato, e o poder de compra dessas pessoas desaba”, afirma Ana Rojas Acosta, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das autoras do estudo.
A pesquisa, realizada com Sonia Tello-Rozas, da Université du Québec à Montréal (UQAM), mostra que os riscos mudam conforme a região. Enquanto no Sudeste 62% apontam enchentes e inundações, no Nordeste 89% dos especialistas indicam as secas prolongadas como a principal ameaça às safras e ao abastecimento. No Centro-Oeste, são 65%.
O problema, portanto, não termina na produção. Segurança alimentar também depende de transporte, distribuição e, principalmente, de renda para comprar o alimento disponível. É nesse ponto que os eventos climáticos podem aprofundar desigualdades que já existiam antes da chuva ou da seca.
As redes de apoio criadas pelas próprias comunidades ajudam na resposta aos desastres, mas não substituem políticas públicas, segundo as pesquisadoras.
“Não se pode romantizar a resiliência comunitária. Sem proteção social e políticas de Estado que regulem e protejam os preços e a distribuição, abandonar as periferias à própria sorte gera o que chamamos de ‘resiliência por abandono’”, alerta Ana Rojas.
O estudo de Ana Rojas e Sonia Tello-Rozas aponta que iniciativas comunitárias podem aumentar a capacidade de reação às crises, mas têm alcance limitado sem coordenação pública e proteção social.
No caminho entre o campo e a mesa, portanto, a chuva pode atingir a produção, interromper o transporte, encarecer a distribuição e chegar ao orçamento das famílias. A comida continua existindo, mas pode deixar de caber no bolso.



