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Cinco meses depois, impactos da enchente persistem no dia a dia e abalam em cheio a saúde mental da população

Ubá tenta se refazer após pior enchente de sua história. Foto: Washington Alves/Light Press
Ubá tenta se refazer após pior enchente de sua história. Foto: Washington Alves/Light Press

A destruição que tomou conta de Ubá e de outras cidades da Zona da Mata mineira após as enchentes de fevereiro deixou marcas profundas na saúde mental da população. Cinco meses depois, o ritmo lento da reconstrução contrasta com a urgência dos moradores. Para eles, sair de casa se tornou um desafio. Trânsito caótico, avenidas interditadas, muita poeira com as obras, comércio sem vender… 

A dor coletiva é exposta nas redes sociais, em conversas informais ou em entrevistas. As pessoas descrevem sentimentos de tristeza, angústia, desesperança, raiva e indignação. 

“Uma enchente não destrói apenas casas, objetos e ruas. Ela também abala profundamente a sensação de segurança, pertencimento e continuidade da vida. Do ponto de vista psicológico e emocional, o impacto pode ser intenso, prolongado e, muitas vezes, invisível para quem observa de fora”, disse a psicóloga Silvia Regina Dias ao Portal Reconstruções.

“Fico desolada, parece que a cidade está pior hoje do que depois da enchente”, diz uma advogada de 55 anos. “Minha indignação é que as obras não andam, e a prefeitura não fala nada. E na Beira-Rio ainda parece que foi atingida por bombardeios”, desabafa um comerciante que trabalha na avenida, a principal ligação de vários bairros com o centro. 

“É muito triste ver uma cidade tão próspera como Ubá nessa situação, e ainda com escândalos na administração um atrás do outro”, diz um empresário, que sofre com a queda expressiva no movimento do seu negócio, próximo à rodoviária. 

Quando uma enchente destrói bairros, praças, escolas, igrejas e /ou comércios, as pessoas perdem referências afetivas construídas ao longo da vida. Esse fenômeno é chamado por alguns pesquisadores de “luto territorial” ou “luto pelo lugar”. É o que tem acontecido em praticamente todos os cantos do Planeta, resultado do aquecimento global e seus reflexos severos na desestabilização do clima. 

A psicóloga Silvia Regina lembra que o impacto de tragédias como a da Zona da Mata afeta também o corpo físico, que continua funcionando por um bom tempo como se o perigo ainda estivesse acontecendo, desenvolvendo muitas vezes doenças psicossomáticas. Outros transtornos que aparecem merecem atenção: ansiedade generalizada, depressão, síndrome do pânico, transtorno de stress pós traumático (TEPT).

“Não são apenas perdas materiais, mas pessoas, familiares queridos, vínculos sociais, sonhos, projetos; perda da rotina. Muitos relatam a perda do senso de identidade; com a sensação de não saberem mais quem são. Perdem a referência da própria história pois documentos e fotografias sucumbiram junto as águas”.

A psicóloga é de Cataguases, cidade que também foi abalada pelas enchentes de fevereiro e tenta se reconstruir. Silvia Regina diz que a recuperação emocional exige tempo e acolhimento. “O apoio psicológico é imprescindível nestes casos que com a escuta empática consegue iniciar um processo profundo de reorganização emocional das pessoas envolvidas em tragédias como a enchente”.

Nervosismo, ansiedade, depressão

Estudos reforçam com estatísticas que os impactos das mudanças climáticas já fazem parte da rotina dos brasileiros. Segundo o Panorama da Saúde Mental, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, 54% da população afirma se preocupar diariamente ou semanalmente com a crise climática, e quase 42% acredita que ela já afetou sua saúde mental.

Entre as pessoas que já vivenciaram desastres, como enchentes, queimadas e ondas de calor, os efeitos emocionais aparecem no dia a dia. A pesquisa mostra que 58% relatam sentir nervosismo, ansiedade ou inquietação diante das mudanças climáticas, 51% convivem com medo constante e 44% dizem ter preocupação excessiva com o tema.

Os reflexos vão além das emoções. Entre 34% e 36% dos entrevistados afirmam que a ansiedade climática já prejudicou atividades cotidianas, causando dificuldades para dormir, trabalhar e manter relações sociais, o que evidencia que os eventos extremos também comprometem a qualidade de vida e o bem-estar psicológico da população.

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