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Desastres relacionados à água atingem 9 em cada 10 cidades brasileiras e geram prejuízo de US$ 123 bi

Deslizamento provocado pela chuva em Juiz de Fora. Foto Corpo de Bombeiros/MG
Deslizamento provocado pela chuva em Juiz de Fora. Foto Corpo de Bombeiros/MG

As enchentes e os deslizamentos que atingiram a Zona da Mata de Minas Gerais em fevereiro de 2026 e mantêm municípios como Ubá e Juiz de Fora em processo de reconstrução fazem parte de uma realidade que já alcançou praticamente todo o território brasileiro.

Entre 1991 e 2024, 5.097 dos 5.570 municípios brasileiros — o equivalente a 91,5% do total — registraram pelo menos um desastre relacionado ao excesso ou à falta de água. Foram analisadas 59.658 ocorrências envolvendo inundações, alagamentos, enxurradas, deslizamentos de terra, tempestades e secas.

O levantamento está no artigo científico Water-related disasters in Brazil: an assessment from 1991 to 2024 — em tradução livre, “Desastres relacionados à água no Brasil: uma avaliação de 1991 a 2024”. O trabalho foi publicado em abril de 2026 na revista científica internacional Environmental Research Letters e está disponível também no Repositório da Produção da Universidade de São Paulo.

A pesquisa foi liderada por Elton Vicente Escobar-Silva, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, e reuniu 12 autores ligados ao próprio centro, à Universidade de São Paulo, ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, à Universidade Federal de São Carlos e à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Quase 5 mil mortes e prejuízo superior a US$ 123 bilhões

Os desastres registrados ao longo dos 34 anos provocaram pelo menos 4.774 mortes e deixaram 3.031 pessoas desaparecidas. Somadas todas as ocorrências, mais de 129,79 milhões de pessoas foram afetadas.

As perdas econômicas foram estimadas em mais de US$ 123,89 bilhões, considerando danos materiais e consequências sobre atividades econômicas e sobre a capacidade de recuperação das localidades atingidas. Os próprios pesquisadores, entretanto, alertam que os valores reais provavelmente são maiores devido à subnotificação e às limitações dos bancos de dados brasileiros.

A abrangência territorial também chama a atenção. O Nordeste concentrou o maior número de municípios com registros de desastres, com 1.765 cidades. Em seguida aparecem Sudeste, com 1.405; Sul, com 1.152; Norte, com 433; e Centro-Oeste, com 342.

Mais de 2 mil municípios convivem com riscos sobrepostos. Em 1.814 cidades foram registrados desastres pertencentes a três das quatro categorias analisadas: inundações, deslizamentos, tempestades e secas. Outras 270 enfrentaram ocorrências de todas as quatro modalidades entre 1991 e 2024.

Isso significa que parte significativa das cidades não está exposta a apenas um tipo de ameaça. Um mesmo município pode enfrentar períodos de seca, tempestades severas, transbordamento de rios e movimentações de terra, exigindo planejamento capaz de considerar diferentes riscos de maneira integrada.

Sudeste concentra mortes por enchentes e deslizamentos

Os impactos variam conforme a região. O Sudeste concentrou o maior número de mortes relacionadas a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra. Somente as ocorrências classificadas como inundações, alagamentos ou enxurradas provocaram 2.662 mortes no país; 1.632 delas foram registradas no Sudeste.

A região também somou 579 das 637 mortes associadas a deslizamentos de terra, segundo as tabelas do estudo.

O Sul liderou as mortes provocadas por tempestades, enquanto o Nordeste registrou o maior número de óbitos associados às secas. Em relação aos prejuízos econômicos, as inundações, os alagamentos e as enxurradas produziram os maiores impactos no Sul. Os deslizamentos e as secas atingiram mais fortemente a economia nordestina, enquanto as tempestades causaram maiores perdas no Sudeste.

Os pesquisadores adotaram quatro grandes categorias. A primeira reúne inundações, quando um rio transborda; alagamentos, provocados quando a drenagem urbana não consegue escoar a água; e enxurradas, caracterizadas pelo deslocamento rápido e violento de grande quantidade de água.

As outras categorias são os deslizamentos de terra, as tempestades e as secas. O objetivo foi criar uma visão nacional dos chamados desastres relacionados à água, abrangendo tanto os efeitos do excesso quanto os da escassez de chuva.

Desastres não são apenas fenômenos naturais

Um dos principais argumentos apresentados pelos autores é que esses episódios não devem ser tratados como acontecimentos inevitáveis ou exclusivamente naturais.

Embora chuvas intensas, tempestades e secas sejam fenômenos físicos, a transformação de um evento extremo em desastre depende de fatores como ocupação de áreas vulneráveis, qualidade das construções, manutenção da drenagem, existência de sistemas de alerta, capacidade da Defesa Civil e atuação do poder público.

À Agência FAPESP, Elton Escobar-Silva afirmou que, na maioria das situações, os órgãos de monitoramento conseguem emitir alertas às autoridades. Segundo ele, “o problema é a negligência, a falta de estrutura e até ausência de atuação”.

Por isso, o pesquisador defende o uso das expressões “desastres socionaturais” ou “socioambientais”. A terminologia reconhece que as mudanças climáticas podem intensificar os eventos, mas também considera o papel das decisões humanas, das desigualdades sociais e das falhas de planejamento e gestão pública.

Para cidades em reconstrução, essa distinção é fundamental. Recuperar pontes, ruas, margens de rios e imóveis sem enfrentar as condições que produziram a vulnerabilidade pode deixar a população novamente exposta ao próximo evento extremo.

Números podem estar subestimados

As informações utilizadas no levantamento vieram principalmente do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, o S2iD, e do Atlas Digital de Desastres no Brasil. As duas plataformas são mantidas pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e dependem, em grande parte, das informações declaradas pelas administrações municipais.

Os registros são usados, entre outras finalidades, para solicitar reconhecimento federal e recursos quando municípios e estados não conseguem responder aos danos com os próprios meios.

Esse modelo cria limitações. Municípios sem equipes estruturadas podem não registrar todas as ocorrências, mortes ou perdas. Casos administrados localmente também podem ficar fora dos sistemas. Levantamento citado pela Agência FAPESP indica que cerca de 1.660 cidades brasileiras não possuem uma Defesa Civil organizada.

Outra limitação é a falta de uma abordagem multirrisco. Quando uma inundação provoca um deslizamento, por exemplo, apenas um dos fenômenos pode aparecer no registro oficial. Há também dificuldade para identificar corretamente a relação entre determinadas mortes e o desastre que as provocou.

O S2iD começou a operar em 2013. Naquele ano, 29% dos municípios registraram ocorrências na plataforma. Em 2024, o percentual chegou a 88%. Portanto, parte do crescimento observado ao longo da série está relacionada à ampliação e ao aperfeiçoamento dos mecanismos de registro, e não pode ser atribuída automaticamente apenas ao aumento dos eventos climáticos.

A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil informou à Agência FAPESP que prepara novas versões do S2iD e do Atlas Digital. A proposta é permitir registros multirrisco, atualizações contínuas e maior detalhamento das pessoas atingidas, incluindo informações por gênero e faixa etária.

Reconstruir ou reduzir os riscos?

Para Victor Marchezini, sociólogo e pesquisador do Cemaden que também assina o artigo, os resultados mostram que o país atravessa uma “crise crônica, não algo pontual”. O pesquisador questiona a concentração de recursos na resposta emergencial e na reconstrução, enquanto medidas destinadas a evitar mortes e reduzir prejuízos continuam recebendo atenção insuficiente.

O estudo reforça a necessidade de investimentos permanentes em sistemas de monitoramento e alerta, estruturação das defesas civis, drenagem urbana, contenção de encostas, planejamento territorial e preparação das comunidades.

Também aponta para a necessidade de incorporar diferentes riscos ao planejamento municipal. Uma cidade sujeita a enchentes pode, ao mesmo tempo, conviver com deslizamentos, tempestades severas ou longos períodos de seca.

No caso da Zona da Mata, onde municípios ainda contabilizam os danos e executam obras depois das enchentes de fevereiro, a pesquisa amplia uma pergunta que orienta o próprio processo de reconstrução: os recursos serão empregados apenas para recuperar o que foi destruído ou também para impedir que as mesmas vulnerabilidades produzam uma nova tragédia?


O estudo

Título: Water-related disasters in Brazil: an assessment from 1991 to 2024

Publicação: Environmental Research Letters, volume 21, artigo 074015

Publicado em: 10 de abril de 2026

Autores: Elton Vicente Escobar-Silva e outros 11 pesquisadores

DOI: 10.1088/1748-9326/ae5991

Bases analisadas: Sistema Integrado de Informações sobre Desastres e Atlas Digital de Desastres no Brasil.

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