Depois de um primeiro semestre marcado por enchentes, deslizamentos e prejuízos em diferentes regiões de Minas Gerais, a confirmação da alta probabilidade de atuação do fenômeno El Niño entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 levanta uma questão importante: os municípios aprenderam com as tragédias recentes ou continuam se preparando apenas quando os desastres já estão acontecendo?
As projeções indicam cerca de 80% de chance de desenvolvimento do fenômeno ainda neste ano, com intensidade entre moderada e forte. Em Minas Gerais, os principais impactos esperados são temperaturas acima da média, ondas de calor mais frequentes, redução da umidade do ar, prolongamento do período seco, atraso das chuvas e aumento do risco de queimadas. Também há possibilidade de chuvas mais irregulares, concentradas em curtos períodos, favorecendo enxurradas e alagamentos em áreas urbanas vulneráveis.
Diante desse cenário, o Governo de Minas informou que intensificou as ações de preparação por meio da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec). Entre as medidas estão o reforço do monitoramento meteorológico, a integração entre órgãos estaduais, o acompanhamento permanente das condições climáticas e a orientação para que os municípios atualizem seus planos de contingência e fortaleçam as estruturas locais de Defesa Civil. O Estado também reforçou o alerta para os possíveis impactos na agricultura, no abastecimento de água e na ocorrência de incêndios florestais.
CNM: prevenção deve começar antes da emergência
Mais do que acompanhar boletins meteorológicos, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) defende que as prefeituras iniciem imediatamente as ações de preparação.
Em nota técnica divulgada aos gestores municipais, a entidade orienta que os municípios revisem seus Planos de Contingência (Plancon), atualizem o mapeamento das áreas de risco, definam previamente abrigos temporários, revisem rotas de evacuação, reforcem as equipes de Defesa Civil, realizem a manutenção dos sistemas de drenagem e ampliem a comunicação de risco com a população.
A CNM também recomenda que as administrações municipais avaliem a capacidade da rede de saúde para responder a ondas de calor, fortaleçam ações de prevenção a incêndios florestais, revisem planos para garantir o abastecimento de água e mantenham atenção especial às populações mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas em situação de risco social.
Para o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, “a atuação antecipada das administrações locais é fundamental para minimizar perdas humanas, sociais, econômicas e ambientais em um cenário marcado pelo aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos”.
Segundo a entidade, mesmo existindo incertezas sobre a intensidade e a distribuição dos impactos do El Niño, já há evidências suficientes para que os municípios antecipem medidas de sustentabilidade e resiliência, utilizando os alertas climáticos como instrumento de planejamento e não apenas de resposta emergencial.
Itajubá aposta em ciência para reduzir riscos
Enquanto muitas cidades ainda estruturam seus planos, Itajubá, no Sul de Minas, decidiu investir em prevenção baseada em ciência e tecnologia.
O município está entre cerca de 200 cidades brasileiras que elaboram um Plano Municipal de Redução de Riscos com apoio do Ministério das Cidades e em parceria com a Universidade Federal de Itajubá (Unifei). O objetivo é aprofundar o mapeamento das áreas sujeitas a processos hidrológicos e geológicos, estabelecer prioridades e definir intervenções capazes de reduzir ou eliminar riscos para a população.
Segundo o secretário municipal de Defesa Social, coronel André Coli, o plano reúne conhecimento científico e gestão pública.
“Criamos o Plano Municipal de Redução de Riscos em parceria com a Unifei e com o Governo Federal para aliar o trabalho do poder público com a ciência, pesquisa e ações preventivas para protegermos melhor a nossa cidade.”
Além do planejamento, Itajubá investiu em tecnologia para ampliar o monitoramento do território em tempo real.
De acordo com a professora da Unifei e coordenadora do Plano Municipal de Redução de Riscos, Adnele Guimarães, o município conta atualmente com 25 estações automáticas de monitoramento distribuídas inclusive em áreas remotas. Os equipamentos enviam informações a cada dois minutos, permitindo que a Defesa Civil acompanhe a evolução das condições hidrológicas com antecedência suficiente para avaliar a necessidade de evacuações.
“O sistema transmite informações a cada dois minutos. Isso dá horas de antecedência para que a Defesa Civil possa atuar. A prefeitura tem feito a sua parte”, afirma.
As informações também podem ser acompanhadas em tempo real pela população por meio da plataforma oficial do município.
Ubá mantém monitoramento, mas não detalha plano preventivo
Na Zona da Mata, onde a enchente de fevereiro de 2026 provocou a maior tragédia climática da história do município, a Prefeitura de Ubá publicou nas redes sociais que acompanha continuamente as previsões meteorológicas e que, até o momento, não foi identificado risco de eventos extremos relacionados ao El Niño na cidade.
Procurada pelo Reconstruções, entretanto, a administração municipal não informou quais medidas preventivas específicas estão sendo adotadas para preparar o município para os possíveis impactos do fenômeno. Em resposta à reportagem, limitou-se a informar que a Defesa Civil permanece em estado de alerta e que segue monitorando a evolução das previsões.
Belo Horizonte cria centro de monitoramento
Na última sexta-feira, dia 3, Belo Horizonte iniciou as atividades do Centro de Informação em Saúde e Clima (CISC), uma estrutura criada para antecipar os impactos de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e queimadas associadas ao fenômeno, permitindo que a rede municipal de saúde se prepare antes do aumento da demanda por atendimentos.
O programa faz parte de um projeto-piloto do Ministério da Saúde, com atividades de pesquisa, monitoramento e visitas técnicas na capital mineira. O objetivo é transformar dados climáticos em ações preventivas para reduzir os impactos das mudanças climáticas na saúde da população.
Efeitos variam conforme a região de Minas
Os efeitos do El Niño variam conforme sua intensidade e as características de cada região. Para o Sudeste, a tendência é de temperaturas acima da média, ondas de calor mais intensas, redução da umidade do ar e maior irregularidade das chuvas, alternando períodos de estiagem com precipitações concentradas.
Em regiões como a Zona da Mata, marcada pelo relevo acidentado, intensa urbanização e ocupação de áreas suscetíveis, especialistas alertam que a combinação de calor extremo e chuvas concentradas pode ampliar riscos já conhecidos, exigindo planejamento permanente.
Mais do que acompanhar a previsão do tempo, o El Niño representa um teste para a capacidade de adaptação das cidades mineiras. A diferença entre reagir e prevenir pode determinar a dimensão dos impactos quando os próximos eventos extremos chegarem.
Enquanto municípios como Itajubá investem em planejamento, monitoramento e conhecimento científico, a expectativa é que outras cidades transformem os alertas climáticos em políticas públicas permanentes. Afinal, como defende a própria CNM, os alertas existem justamente para que as administrações públicas atuem antes da emergência — e não apenas depois da tragédia.



