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Três anos após tragédia climática, reconstrução de São Sebastião traz lições a cidades vulneráveis

Drones jogaram 134 milhões de sementes em encostas. Foto Instituto Conservação Costeira
Drones jogaram 134 milhões de sementes em encostas. Foto Instituto Conservação Costeira

Quando 682 milímetros de chuva caíram sobre São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, em apenas 24 horas, em fevereiro de 2023, o Brasil testemunhou a maior tragédia climática de sua história recente, em volume de chuva. Os deslizamentos de terra deixaram 64 mortos, destruíram comunidades inteiras e abriram centenas de cicatrizes nas encostas da Serra do Mar.

Três anos depois, a paisagem ainda guarda marcas daquele desastre. Mas também revela uma lição importante para cidades brasileiras cada vez mais expostas a eventos extremos: reconstruir não significa apenas recuperar ruas, pontes e moradias. Significa também restaurar a natureza e impedir que novas ocupações ampliem os riscos para a população.

Dados divulgados pelo Instituto Conservação Costeira (ICC) mostram que mais de 160 hectares de Mata Atlântica já apresentam sinais de recuperação nas áreas atingidas pelos deslizamentos. O trabalho faz parte do Projeto Restaura Litoral, criado após a tragédia para restaurar 203 hectares degradados pelas chuvas.

A iniciativa utilizou drones para dispersar mais de 134 milhões de sementes de espécies nativas em encostas de difícil acesso. O objetivo é acelerar um processo natural que levaria décadas para acontecer sozinho.

O resultado vai além da recuperação da vegetação. Florestas saudáveis ajudam a estabilizar encostas, aumentar a infiltração da água da chuva, proteger nascentes e reduzir a vulnerabilidade de áreas sujeitas a deslizamentos. Em outras palavras, a restauração ambiental também é uma obra de prevenção.

A reconstrução não termina quando a lama seca

Se a recuperação da floresta representa um sinal positivo, os dados de monitoramento territorial revelam um alerta.

Enquanto a Mata Atlântica volta a crescer em algumas áreas, novas ocupações irregulares e desmatamentos continuam avançando sobre regiões ambientalmente protegidas. Levantamento realizado pelo ICC na Área de Proteção Ambiental Baleia-Sahy identificou a incorporação de cerca de 77 mil metros quadrados de novas ocupações apenas no último ano.

Nos quatro bairros monitorados, a área ocupada passou de 140,7 mil metros quadrados em 2019 para 182,7 mil metros quadrados atualmente. Já o desmatamento acumulado supera 532 mil metros quadrados.

O contraste evidencia um dos principais desafios da adaptação climática no Brasil. Não basta investir recursos para recuperar áreas degradadas se novas intervenções continuam aumentando a pressão sobre os ecossistemas que ajudam a proteger as cidades.

A experiência de São Sebastião mostra que a reconstrução é um processo permanente. Ela depende de fiscalização, planejamento urbano, controle da ocupação do solo e preservação dos remanescentes florestais.

Um alerta para cidades de todo o país

O que aconteceu em São Sebastião não é um caso isolado. Eventos extremos vêm se tornando mais frequentes em diversas regiões brasileiras, incluindo municípios da Zona da Mata mineira, que nos últimos anos também enfrentaram enchentes, deslizamentos e prejuízos bilionários.

Por isso, especialistas consideram que o município paulista se tornou uma espécie de laboratório para entender como cidades podem se preparar para um clima cada vez mais instável.

A principal lição talvez seja a mais simples: a natureza não pode ser vista apenas como vítima dos desastres. Ela também faz parte da solução.

Áreas florestadas reduzem riscos, ajudam a controlar o escoamento das águas e aumentam a resiliência dos territórios diante de chuvas intensas. Quando essas áreas são degradadas ou ocupadas sem planejamento, a vulnerabilidade cresce.

“O que está em jogo não é apenas a recuperação de uma área atingida pelas chuvas de 2023. Estamos falando da capacidade de construir um território mais resiliente diante das mudanças climáticas. A restauração ambiental avança, mas a pressão sobre a Mata Atlântica continua crescendo. São duas disputas acontecendo simultaneamente no mesmo território”, afirma Fernanda Carbonelli, presidente do Instituto Conservação Costeira.

Três anos após a tragédia, São Sebastião oferece ao país uma reflexão que vai além de suas fronteiras. A reconstrução de uma cidade não se mede apenas pelo que foi reconstruído, mas pela capacidade de evitar que os mesmos erros produzam novas tragédias no futuro.

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