Na madrugada de 23 para 24 de fevereiro de 2026, a cuidadora Angelina Aparecida Domingos, 46 anos, viveu um dos maiores traumas da sua vida. Ela morava no segundo andar de um prédio da Rua Antônio Batista, no Centro de Ubá, e ficou ilhada dentro do apartamento com a filha de 10 anos enquanto assistia, sem poder fazer nada, à força da água destruir imóveis ao redor.
A casa vizinha desabou diante de seus olhos, sua moto foi levada pela enxurrada e, poucas horas depois, a Defesa Civil interditou o prédio onde morava. Em uma única noite, Angelina perdeu praticamente tudo.
Em meio às dificuldades enfrentadas desde então, ela recebeu uma grande notícia: foi contemplada pelo programa Compra Assistida, do Minha Casa, Minha Vida Reconstrução, com um imóvel de até R$ 200 mil. Nesta entrevista ao Portal Reconstruções, Angelina relembra os momentos de terror vividos durante a enchente, fala sobre os desafios enfrentados após perder sua moradia e conta como recebeu a notícia que transformou sua perspectiva de futuro.

“Eu e minha filha ficamos ilhadas. Não havia como sair. A sensação era de que o próximo imóvel a cair seria o nosso”, relembra.
Durante cerca de três horas, mãe e filha permaneceram presas no apartamento enquanto os bombeiros enfrentavam dificuldades para chegar ao local devido à força da correnteza. Angelina conta que tentou manter a calma para não transmitir o medo à filha de apenas 10 anos.
“Parecia cena de filme, tinha ondas. Eu nunca tinha visto tanta água na minha vida.”
Somente por volta das 5h25 da manhã, ela conseguiu deixar o imóvel. Ao descer, percebeu que parte da estrutura do prédio havia cedido, decidiu retirar imediatamente a filha do local. Um morador carregou a menina nas costas para atravessar o trecho ainda alagado.
Após deixar a filha na casa de familiares, Angelina retornou ao prédio, mas já encontrou o imóvel interditado pela Defesa Civil. Ela recebeu autorização apenas para recolher documentos e algumas peças de roupa. As rachaduras e os danos estruturais impediam qualquer retorno.
Em uma única noite, perdeu praticamente tudo o que possuía. Além dos móveis e pertences pessoais, a motocicleta que utilizava diariamente para trabalhar e visitar a mãe, moradora de Guiricema, também foi destruída pela enchente.
“A moto era muito importante para mim. Depois que minha irmã morreu na pandemia, passei a ajudar ainda mais minha mãe. Eu dependia dela para estar presente quando precisava.”
As consequências da tragédia não foram apenas materiais. Quase quatro meses depois, Angelina afirma que ainda convive com sequelas emocionais. O medo da chuva e da água passou a fazer parte de sua rotina.
“Quando passo perto de um rio, já não consigo ouvir o barulho da água da mesma forma. Ainda tenho pesadelos e dificuldades para dormir.”
Ela conta que já enfrentava um quadro de depressão após a perda da irmã e que a enchente agravou ainda mais sua situação emocional. Nos primeiros meses após o desastre, precisou buscar atendimento médico e iniciou tratamento com medicamentos.
Sem poder voltar para casa, Angelina passou a morar com a filha mais velha, no bairro Paulino Fernandes. Já a filha de 10 anos foi acolhida por uma tia. A separação temporária da família tornou o período ainda mais difícil.
A oportunidade de reconstruir a vida surgiu quando foi procurada por assistentes sociais ligadas ao programa Compra Assistida, modalidade do Minha Casa, Minha Vida Reconstrução voltada para famílias atingidas por desastres. Inicialmente, ela não acreditou que seria contemplada.
“Eu já tinha preenchido vários formulários e procurado ajuda de muitas formas. Sinceramente, não tinha mais esperança.”
Algum tempo depois, recebeu uma convocação para comparecer ao Fórum de Ubá. Foi lá que recebeu a notícia que mudaria seu futuro: havia sido aprovada para adquirir uma moradia pelo programa federal.
“Na hora eu não sabia se chorava, ria ou se acreditava. Parecia um sonho depois de tudo que eu tinha vivido.”
Atualmente, o processo está em fase final. Angelina já escolheu o apartamento onde pretende morar e aguarda apenas a conclusão dos trâmites junto à Caixa Econômica Federal e ao cartório. Por meio da iniciativa, o governo federal adquire imóveis já prontos, de até um valor previamente estabelecido, para destinar às famílias atingidas.
O beneficiário pode escolher um imóvel que atenda aos critérios do programa, enquanto a compra é custeada com recursos públicos, sem necessidade de financiamento ou pagamento de parcelas pela família contemplada.
O imóvel selecionado ultrapassava o limite estabelecido pelo programa, mas os proprietários concordaram em reduzir o valor da venda para atender famílias atingidas pela enchente.
“São pessoas que decidiram ajudar quem perdeu tudo. Achei isso muito bonito.”
Ela também faz questão de destacar que o benefício contempla não apenas proprietários, mas também moradores de imóveis alugados afetados pela tragédia.
“Muitas pessoas achavam que não poderiam participar por não serem donas da casa. Mas quem morava ali, mesmo sendo inquilino, viveu a mesma dor.”
Embora ainda aguarde a entrega definitiva do imóvel, Angelina já enxerga a possibilidade de recomeçar. Depois de perder sua moradia, seus bens e a sensação de segurança, a perspectiva de ter uma casa própria representa mais do que uma conquista material.
“Depois de perder tudo, ter a oportunidade de reconstruir minha vida e voltar a ter um lar é uma felicidade muito grande.”
Ao refletir sobre o processo de recuperação da cidade, ela reconhece que a reconstrução ainda é lenta e cheia de desafios, mas acredita que a dimensão da tragédia exigirá tempo para ser superada.
“A destruição foi muito grande. O que aconteceu naquela noite marcou a vida de todos nós. É uma dor que nunca vai embora.”




Uma resposta
Viva o Governo Federal!!!!
Viva o President Lula!!!