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86% dos moradores do Sudeste perceberam mudanças no clima no último ano, aponta pesquisa

28.02.2026 - Áreas afetadas pelas chuvas em Juiz de Fora (MG).
Foto: Ricardo Stuckert / PR
28.02.2026 - Áreas afetadas pelas chuvas em Juiz de Fora (MG). Foto: Ricardo Stuckert / PR

Ondas de calor intenso e alagamentos provocados por temporais estão entre os principais impactos percebidos pela população. Levantamento mostra ainda que 35% dos moradores da região não sabem o que é El Niño

A mudança no clima deixou de ser uma preocupação distante para grande parte da população do Sudeste. Pesquisa realizada pela Nexus mostra que 86% dos moradores da região perceberam alterações no clima no último ano. Desse total, 57% afirmam que o clima mudou muito e 29% dizem ter percebido alguma mudança.

O resultado é próximo da média nacional, de 85%.

Entre os impactos mais percebidos estão as ondas de calor intenso, mencionadas por 45% dos entrevistados. Na sequência aparecem os alagamentos provocados por temporais, citados por 29%, e as secas prolongadas ou falta de água, apontadas por 24%.

A população também percebe o aumento de tempestades de vento. O fenômeno foi citado por 14% dos moradores do Sudeste.

Para a maioria, ação humana tem responsabilidade

A percepção sobre a mudança do clima também aparece quando os entrevistados são questionados sobre suas causas.

No Sudeste, 54% atribuem o avanço dos eventos climáticos extremos à ação humana. Outros 20% acreditam que as alterações são resultado da combinação entre fatores humanos e fenômenos naturais.

Já 22% consideram que os eventos são apenas fenômenos naturais. É o menor percentual entre todas as regiões brasileiras e fica abaixo da média nacional, de 24%.

Os números mostram que, para a maioria da população do Sudeste, os eventos extremos não são percebidos apenas como acontecimentos naturais isolados.

El Niño ainda é desconhecido por mais de um terço

Se a percepção sobre as mudanças no clima é elevada, o conhecimento sobre fenômenos que influenciam o clima ainda apresenta uma lacuna importante.

Segundo a pesquisa, 35% dos moradores do Sudeste não sabem o que é o El Niño.

Entre os que conhecem o fenômeno, 14% afirmam acompanhar bem o assunto, enquanto 21% acompanham um pouco. Outros 11% dizem que não acompanham o tema e 17% afirmam que apenas ouviram falar.

A pesquisa considerou o El Niño no contexto de sua possível influência sobre eventos extremos no Brasil, como períodos de chuva intensa e ondas de calor.

Depois de receberem uma explicação sobre o fenômeno, entretanto, a percepção de risco aumenta significativamente.

63% dos moradores do Sudeste afirmaram ter medo considerável dos efeitos do El Niño no Brasil, considerando as notas 4 e 5 em uma escala de 1 a 5. Apenas 14% disseram não ter medo algum.

Medo vai além das enchentes e do calor

As principais preocupações reveladas pela pesquisa mostram que os impactos climáticos são percebidos pela população como um problema que pode atingir diferentes áreas da vida cotidiana.

O maior temor, citado por 78% dos moradores do Sudeste, é o aumento no preço dos alimentos.

Logo depois aparece a preocupação com a saúde. 76% temem o aumento de doenças respiratórias ou enfermidades relacionadas a enchentes.

Também estão entre as preocupações:

71% — aumento da conta de luz
69% — possível falta de água
68% — problemas na infraestrutura das cidades

O resultado chama atenção especialmente porque os impactos climáticos são cada vez mais associados a questões que ultrapassam o meio ambiente, atingindo diretamente o orçamento das famílias, a saúde e a capacidade das cidades de responder a situações extremas.

Informação e infraestrutura

Para o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, os resultados mostram que a população do Sudeste já reconhece as alterações no clima, mas ainda existe uma lacuna importante de informação.

“A percepção de que o clima mudou é consolidada no Sudeste, mas o desconhecimento sobre o El Niño ainda é um obstáculo”, afirma.

Segundo ele, a população sente os efeitos principalmente por meio do calor e das enchentes e teme consequências sobre renda e saúde.

O executivo também chama atenção para a necessidade de respostas das cidades em áreas como prevenção e infraestrutura.

A questão é especialmente relevante para municípios que convivem com ocupação de áreas de risco, sistemas de drenagem insuficientes e estruturas urbanas vulneráveis a chuvas intensas.

No caso das ondas de calor, o desafio também envolve planejamento urbano, arborização, áreas verdes e medidas capazes de reduzir a exposição da população ao calor extremo.

O que a pesquisa revela

Os números da Nexus ajudam a desenhar um cenário em que a crise climática já é percebida no cotidiano dos moradores do Sudeste.

O calor intenso, as chuvas fortes, os alagamentos e a falta de água aparecem como experiências concretas para uma parcela significativa da população.

Ao mesmo tempo, o levantamento mostra que sentir os efeitos das mudanças climáticas não significa necessariamente compreender os fenômenos que ajudam a explicar a variabilidade do clima.

A diferença entre percepção e conhecimento reforça a importância da informação pública e da comunicação sobre riscos climáticos, especialmente em períodos em que fenômenos como o El Niño podem influenciar as condições meteorológicas.

Para as cidades, o desafio é ainda maior: transformar informação em planejamento, prevenção e infraestrutura capaz de reduzir os danos provocados por eventos extremos.

Metodologia

A pesquisa Nexus realizou 2.000 entrevistas presenciais, com abordagem face a face em domicílios e coleta de dados georreferenciados.

A amostra é representativa de todos os estados brasileiros e foi controlada, estratificada e segmentada por sexo, idade, renda e região.

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