O coração de Vanice da Costa gelou quando, no meio da pinguela, ela de repente viu um homem. Entre o rio e o esgoto, era noite naquela passagem improvisada e sinistra. Por sorte, era um trabalhador voltando para casa, com a bicicleta nas costas.
Vanice, moradora do Fazendinha, ciclista e profissional autônoma, registrou para o Portal Reconstruções o perigo enfrentado principalmente pela parcela da comunidade que não dispõe de carro ou moto. Desde que a enchente de fevereiro destruiu parte da ponte de acesso ao bairro Rosa de Toledo, moradores improvisaram uma pinguela para encurtar o caminho e passaram a se arriscar na travessia.
A obra de reconstrução da ponte chegou a ficar paralisada por mais de um mês à espera de um aditivo contratual, o que gerou indignação entre os atingidos. Enquanto a estrutura não é restabelecida, os moradores precisam encontrar alternativas para os deslocamentos cotidianos.
“Só quem vive a situação sabe como é humilhante lidar com tanto descaso”, desabafou Vanice.
Nesta segunda-feira (31), a moradora voltou a denunciar a situação por meio de vídeo. Desta vez, mostrou que a dificuldade de acesso passou a conviver com outro problema: o vazamento constante de esgoto pelas ruas do bairro.
“Estou aqui apenas como cidadã e moradora do bairro Fazendinha para reivindicar nossos direitos, visto que também temos deveres. Só os tributos, esses um absurdo, como a taxa de esgoto que pagamos sem ter, pelo menos não nos foi apresentada na íntegra a realização desse serviço”, afirmou.
Segundo Vanice, as consequências aparecem também no orçamento e na rotina. “O risco de acidente aumenta, os gastos também aumentam, o estresse da gente aumenta sem explicação. Eu acredito que cada um tem algo a dizer.”
Longe do Centro e dependente das pontes
Para uma comunidade afastada da região central de Ubá e dependente das conexões com bairros vizinhos, como Rosa de Toledo, Cohab, Pires da Luz, Santa Alice e Universitário, perder as pontes significa muito mais do que a destruição de duas estruturas. Os trajetos para trabalho, escola, comércio e serviços ficam maiores, e as alternativas não são as mesmas para quem possui carro ou moto e para quem precisa caminhar ou pedalar.
Na enchente histórica de 23 e 24 de fevereiro, Ubá recebeu cerca de 174 milímetros de chuva em apenas três horas e meia. No levantamento dos danos, o município relacionou pelo menos dez pontes totalmente interditadas na área urbana. Entre elas estava a ponte do Rosa de Toledo, identificada oficialmente como acesso ao Fazendinha.
A situação das travessias da região já preocupava antes do desastre. Em 2 de fevereiro, três semanas antes da enchente, uma indicação apresentada na Câmara Municipal solicitava à Secretaria de Obras reparos na ponte do Fazendinha e o fechamento de um buraco existente logo após a estrutura.
Em 2020, Fazendinha também perdeu acesso
O problema enfrentado hoje tampouco é inédito. O Fazendinha já havia sofrido com a perda de travessias durante a sequência de enchentes que atingiu Ubá em 2020. Em janeiro daquele ano, a ponte de acesso ao bairro chegou a ser interditada para veículos pesados. Posteriormente, uma nova cheia danificou a estrutura e afetou o acesso à comunidade.
Uma passagem provisória chegou a ser instalada, mas também não resistiu. Em abril de 2020, depois de cerca de 128 milímetros de chuva em apenas duas horas, a Prefeitura informou que a passarela provisória do Fazendinha havia sido “levada pela força das águas”, restando a estrada como alternativa de acesso.
A situação chegou à Câmara Municipal. Em maio daquele ano, vereadores solicitaram a construção de uma nova passarela na Rua Argélia, no ponto onde a ponte havia sido destruída pelas chuvas. Documentos do Legislativo daquele período também mencionavam uma rota alternativa entre Rosa de Toledo e Fazendinha.
Seis anos depois, moradores voltam a improvisar caminhos para conseguir entrar e sair da região.
Injustiça climática
O que acontece no Fazendinha encontra paralelo em outros territórios atingidos por eventos extremos. Uma pesquisa do IBGE sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul mostrou que os prejuízos não foram distribuídos igualmente entre as diferentes faixas de renda.
Entre os domicílios que sofreram danos estruturais, 31,4% tinham renda mensal de até R$ 2 mil. Entre aqueles que não sofreram danos, a participação dessa faixa de renda era de 16,9%. A desigualdade apareceu também justamente no acesso: dos 652 mil domicílios que ficaram sem condições de entrada ou saída, 55,2% tinham renda de até R$ 3 mil.
A pesquisa mostrou ainda que 57,3% dos moradores afetados tiveram dificuldades para se deslocar para o trabalho, escola ou creche e que 66,8% da população pesquisada vivia em domicílios com renda mensal de até R$ 5 mil. Os números ajudam a dimensionar como um desastre continua interferindo na vida das famílias muito depois de a água baixar.
Para Wagner Costa Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), a maior exposição das populações socialmente vulneráveis está relacionada também às possibilidades de acesso à moradia. “Essas pessoas não têm escolha, elas não foram morar lá porque elas quiseram”, afirmou ao Jornal da USP. Segundo o pesquisador, as condições socioeconômicas limitam as possibilidades de escolha e ajudam a explicar por que parcelas mais vulneráveis da população acabam mais expostas a enchentes, alagamentos e deslizamentos.
No Fazendinha, essa desigualdade aparece hoje no próprio caminho para casa. Para quem não dispõe de carro ou moto, enquanto as ligações destruídas pela enchente não são restabelecidas, uma das alternativas é aquela que Vanice decidiu registrar: uma pinguela improvisada, atravessada a pé — ou com a bicicleta nas costas.



