Experiência apresentada na COP17 combina planejamento de longo prazo, recuperação ambiental, geração de empregos e renda; modelo é apontado pela ONU como referência em grande escala
Um dos países mais afetados pela desertificação no mundo conseguiu transformar o combate ao avanço da areia em uma política que combina recuperação ambiental, planejamento de longo prazo e geração de renda. Desde 2021, a China restaurou mais de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, enquanto cerca de 81 milhões de hectares de pastagens apresentaram recuperação a partir de medidas como restrições ao pastoreio e cercamento de áreas.
Os resultados da experiência chinesa foram apresentados durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), realizada em Ulan Bator, na Mongólia, e ganharam destaque em reportagem da agência chinesa Xinhua publicada nesta sexta-feira (28).
O trabalho chama atenção não apenas pela extensão das áreas recuperadas. Na China, a tentativa de conter a desertificação passou a ser associada à geração de empregos e à criação de atividades econômicas para populações que vivem justamente nas regiões mais vulneráveis à degradação.
Desde 2023, aproximadamente 1,526 milhão de agricultores e pastores conseguiram empregos próximos de suas casas por meio de programas relacionados às ações de recuperação. Cem projetos passaram a integrar conservação ambiental e desenvolvimento industrial.
O valor da produção das indústrias florestais e de pastagens nas regiões atendidas pelo principal programa chinês de combate à desertificação já supera 800 bilhões de yuans, equivalentes a cerca de US$ 119 bilhões.
Os números reforçam uma discussão que atravessou a COP17: recuperar terras degradadas não significa apenas devolver vegetação a uma determinada área. A restauração pode ser incorporada à economia, gerar trabalho e renda e, ao mesmo tempo, aumentar a capacidade dos territórios de enfrentar secas e outros extremos climáticos.
“A experiência da China demonstra que, quando a restauração é integrada a um planejamento de desenvolvimento mais amplo, a ação ambiental se transforma em um investimento nas pessoas e na prosperidade”, afirmou Yasmine Fouad, secretária-executiva da UNCCD.
A escala atual é resultado de uma política iniciada muito antes de a emergência climática ocupar o centro das discussões internacionais.
Em 1978, a China lançou o Programa da Floresta de Abrigo dos Três Nortes, criado para conter o avanço dos desertos e recuperar terras degradadas em extensas regiões áridas do norte, nordeste e noroeste do país.
Quase cinco décadas depois, a cobertura florestal e de vegetação rasteira nas áreas abrangidas pelo programa chegou a 40,76%. Segundo os dados divulgados pela Xinhua, 67,82% das áreas de solo arenoso consideradas passíveis de tratamento foram colocadas sob controle.
Para Yasmine Fouad, a dimensão alcançada torna o país uma referência internacional.
“A China se tornou um dos exemplos mais claros, em grande escala, de como a degradação da terra pode ser revertida”, afirmou a secretária-executiva da UNCCD, que visitou o país em julho.
A experiência chama atenção especialmente pelo tempo necessário para produzir resultados. Em vez de intervenções pontuais, o modelo é baseado em planejamento que atravessa décadas e diferentes gerações.
Jia Xiaoxia, vice-diretora do departamento de prevenção e controle da desertificação da Administração Nacional de Florestas e Pastagens da China, aponta três elementos para explicar a continuidade: financiamento estável, planejamento de longo prazo e manejo integrado do território.
A estratégia procura considerar conjuntamente montanhas, rios, florestas, áreas agrícolas, lagos, pastagens e terrenos arenosos, evitando que cada problema ambiental seja enfrentado isoladamente.
Recuperar a terra e manter as pessoas no território
Outro componente do modelo é a tentativa de fazer com que a população local tenha retorno econômico com a recuperação ambiental.
Além dos mais de 1,5 milhão de agricultores e pastores incorporados a programas de trabalho desde 2023, foram construídos aproximadamente 3.528 quilômetros de rodovias atravessando áreas desérticas. Segundo os dados chineses, as intervenções contribuíram para ações de controle em cerca de 453 mil hectares de terras desérticas, ao mesmo tempo em que ampliaram o acesso das comunidades locais a atividades econômicas.
Mishal Al-Fawaz, diretor da Diretoria de Proteção Ambiental da Província de Zarqa, na Jordânia, considera a China uma das experiências de maior sucesso no controle da desertificação nas últimas quatro décadas. Para ele, outros países podem extrair do modelo principalmente as lições relacionadas a planejamento de longo prazo, participação das comunidades, integração entre conservação e desenvolvimento econômico, pesquisa científica, tecnologia e continuidade do apoio governamental.
É uma perspectiva que ajuda a explicar por que a restauração de terras ganhou espaço também como tema econômico na COP17. Em um cenário no qual 40% das terras do planeta já apresentam algum nível de degradação, recuperar o solo significa também preservar condições para produção de alimentos, disponibilidade de água e permanência das populações nos territórios.
Tecnologia chinesa chega a outros países
A experiência começou também a ultrapassar as fronteiras chinesas.
Na própria Mongólia, sede da COP17, foram instaladas zonas de demonstração de restauração ecológica com participação da China. A cooperação inclui técnicas de plantio de árvores e controle da areia, fornecimento de mudas, monitoramento de areia e poeira e intercâmbio de conhecimentos para recuperação de terras.
Tecnologias utilizadas pelos chineses, entre elas irrigação por gotejamento, armazenamento de água em canais de irrigação e técnicas de cultivo de árvores, também estão sendo aplicadas em países da Ásia Central.
A China mantém ainda programas de treinamento de profissionais estrangeiros e plataformas de cooperação sobre desertificação com países árabes, Mongólia e Ásia Central.
Em julho, a UNCCD lançou em Pequim o Business for Land China Hub, iniciativa criada em parceria com a Sociedade Nacional da China de Controle de Areia e Indústria do Deserto. A proposta é envolver empresas chinesas na restauração de terras e ampliar a participação do setor privado na agenda.
A internacionalização acontece justamente no momento em que o mundo tenta acelerar a recuperação das áreas já degradadas. Dados apresentados na COP17 mostram que os países colocaram efetivamente em recuperação apenas uma pequena parcela das terras que se comprometeram a restaurar.
Nesse cenário, talvez uma das principais lições da experiência chinesa não esteja em uma tecnologia específica, mas no tempo.
O programa que hoje apresenta milhões de hectares recuperados começou em 1978. Quase meio século depois, a continuidade de investimentos, o planejamento territorial e a associação da recuperação ambiental à geração de renda aparecem como elementos centrais de uma experiência que a própria UNCCD passou a observar como referência.
Para Yasmine Fouad, o desafio agora é fazer experiências bem-sucedidas avançarem para além de seus locais de origem, com mais cooperação e investimentos.
Diante da dimensão atual da degradação das terras e das secas, afirmou a dirigente da ONU, é preciso transformar experiências práticas em implementação mais rápida e ação coordenada.



