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Fogões e colchões armazenados em Ubá: entenda a polêmica e o que dizem Prefeitura e Governo

Geladeira do Kit Recomeço é entregue a família de Ubá. Foto: Governo de Minas
Geladeira do Kit Recomeço é entregue a família de Ubá. Foto: Governo de Minas

Vídeos publicados por ex-servidor levantaram suspeitas sobre bens destinados às vítimas da enchente; apuração do Reconstruções mostra que há dois programas diferentes de distribuição, enquanto ocorrências envolvendo furtos e acesso a imóvel público estão sob investigação

Vídeos que circularam pelas redes sociais na última semana provocaram questionamentos em Ubá sobre a destinação de fogões, colchões e outros bens adquiridos para famílias atingidas pelas enchentes de fevereiro. As imagens, divulgadas por um ex-servidor municipal, mostram caixas de eletrodomésticos e colchões armazenados em imóveis utilizados pelo município e levantam suspeitas sobre o motivo de os produtos ainda não terem sido entregues.

Para esclarecer o que pertence a cada programa e em que estágio estão as entregas, o Portal Reconstruções traz as explicações do Governo de Minas e da Prefeitura de Ubá. A apuração mostra que existem dois programas distintos, com públicos e cronogramas diferentes, envolvendo a distribuição de móveis e eletrodomésticos às famílias atingidas pelo desastre.

De um lado está o Kit Recomeço, iniciativa do Governo de Minas. Segundo a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), os kits destinados às 100 famílias selecionadas em Ubá já foram integralmente distribuídos.

De outro estão os bens destinados às famílias que serão contempladas pelo Minha Casa, Minha Vida – Compra Assistida, programa habitacional do governo federal. Segundo a Defesa Civil de Ubá, são esses os produtos que permanecem armazenados e aparecem nos vídeos que deram origem à polêmica.

Kit Recomeço: Estado diz que 100 famílias já receberam os bens

Em resposta ao Reconstruções, o Governo de Minas informou que a distribuição do Kit Recomeço em Ubá ocorreu entre 22 de julho e 10 de agosto e que todas as 100 famílias selecionadas receberam os produtos.

Os kits são compostos, conforme a disponibilidade dos fornecedores, por itens como cama de casal, colchão, geladeira, fogão e máquina de lavar.

A seleção dos beneficiários foi feita a partir de uma lista encaminhada pela Secretaria Municipal de Assistência Social de Ubá, com dados do Cadastro Único (CadÚnico), considerando a base de abril de 2026.

Entre os critérios informados pelo Estado estavam renda familiar por pessoa de até meio salário mínimo, cadastro atualizado e não ter recebido outro atendimento destinado à reparação dos mesmos danos provocados pelas chuvas.

Famílias de menor renda tiveram prioridade. Na sequência, foram considerados fatores como a presença de mães solo, crianças, adolescentes, idosos ou pessoas com deficiência no núcleo familiar.

De acordo com a Sedese, as famílias selecionadas foram contatadas diretamente, por telefone ou aplicativo de mensagens, para agendar a retirada.

Portanto, segundo o Governo de Minas, não há atualmente kits do programa estadual aguardando distribuição às famílias selecionadas em Ubá.

Fogões dos vídeos seriam de outro programa, diz Prefeitura


“Na qualidade de representante da Defesa Civil Nacional, venho por meio desta manifestar esclarecimentos acerca de publicações veiculadas em redes sociais e veículos de imprensa no município de Ubá, que questionam a lisura da atuação de nossa instituição. Tais informações, que sugerem o suposto desvio ou ocultação de itens destinados às vítimas das recentes inundações, são inverídicas e configuram uma estratégia de desinformação deliberada, com o intuito de desestabilizar o trabalho sério que vem sendo realizado em nossa cidade”.

Foi o que disse o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil de Ubá, Anderson Almeida, em vídeo no Instagram.

A Prefeitura de Ubá afirma que os fogões e demais produtos mostrados nos vídeos que circulam nas redes sociais estão destinados às famílias que receberão imóveis por meio do Minha Casa, Minha Vida – Compra Assistida, voltado, no município, a famílias que perderam suas moradias durante a enchente. E que serão entregues, segundo a prefeitura, somente quando os beneficiários estiverem de posse das novas moradias.

“Os equipamentos permanecem armazenados e destinados às famílias que serão contempladas pelo programa Minha Casa, Minha Vida (Compra Assistida), após a entrega das novas moradias”, informou a Prefeitura.

Assim, segundo a versão oficial do município, o fato de os produtos permanecerem armazenados não significa que estejam sem destinação: eles aguardam a conclusão de outra etapa da reconstrução, a aquisição e entrega das moradias aos beneficiários.

Por que existem eletrodomésticos armazenados?

Essa é uma das principais questões levantadas pelas imagens. De acordo com o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, os equipamentos foram mantidos em imóveis públicos justamente porque as famílias às quais se destinam ainda não receberam as respectivas moradias.

A Defesa Civil nega que tenha ocorrido desvio ou ocultação de donativos e sustenta que os produtos estão armazenados até que seja possível realizar a entrega aos beneficiários. O órgão afirma possuir registros em vídeo da armazenagem dos equipamentos e também de acessos ao imóvel onde estavam guardados. Segundo a Defesa Civil, esse material foi encaminhado às autoridades policiais.

Houve furto de eletrodomésticos

Em meio à controvérsia, há ainda ocorrências policiais envolvendo alguns dos bens. Tanto a Prefeitura como o Governo de Minas informaram que duas máquinas de lavar pertencentes ao Kit Recomeço foram furtadas após a chegada dos produtos a Ubá.

Segundo a Sedese, as duas máquinas foram recuperadas pela Polícia Civil de Minas Gerais e devolvidas ao Estado. Posteriormente, foram destinadas às famílias beneficiárias.

A investigação continua para apurar eventuais responsabilidades criminais. A Defesa Civil municipal também afirma ter registrado ocorrência envolvendo o desaparecimento de equipamentos armazenados e outra relacionada ao acesso ao imóvel público. Segundo o órgão, os fatos foram encaminhados às autoridades competentes para investigação.

É importante, portanto, separar a existência dessas ocorrências policiais da discussão sobre a destinação dos produtos: a apuração de eventuais crimes cabe às autoridades policiais e não comprova, por si só, as acusações feitas nas redes sociais sobre desvio de donativos.

Dois programas, duas formas de atendimento

A distinção é importante porque os dois programas fazem parte da resposta ao mesmo desastre e incluem bens semelhantes, mas não seguem necessariamente o mesmo cronograma de distribuição.

No Kit Recomeço, a entrega dos eletrodomésticos e móveis é o próprio atendimento oferecido às famílias indicadas pelo município ao Estado.

No Compra Assistida, conforme a explicação da Defesa Civil municipal, os bens armazenados estão vinculados às famílias que ainda aguardam uma etapa anterior e mais ampla: a aquisição e entrega de uma nova moradia.

Por isso, a presença de caixas de fogões e colchões em imóveis públicos, embora tenha despertado questionamentos legítimos da população sobre sua origem e destinação, precisa ser analisada considerando a existência desses diferentes programas.

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