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Rio Grande do Sul enfrenta “novo normal” e testa reconstrução dois anos após catástrofe

Telhado de concessionária destruído pela chuva em Osório (RS). Foto Prefeitura de Osório
Telhado de concessionária destruído pela chuva em Osório (RS). Foto Prefeitura de Osório

Temporais atingem mais de 200 municípios, elevam rios e provocam estragos em cidades que ainda se recuperam das enchentes históricas de 2024

Dois anos depois da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, as chuvas intensas voltaram a colocar cidades, sistemas de proteção e protocolos de emergência à prova. Além, claro, de já impactar e assustar a população ainda marcada pela dor de 2024. Os temporais dos últimos dias provocaram alagamentos, transbordamentos de rios, destelhamentos, quedas de árvores e interrupções no fornecimento de energia, reacendendo lembranças dolorosas entre moradores que ainda convivem com as consequências do desastre de 2024.

Segundo o Centro de Operações da Defesa Civil do Estado, as chuvas atuais já afetaram 218 municípios gaúchos. Foram contabilizadas 59.967 pessoas atingidas, das quais 321 estão desabrigadas e 762 tiveram de deixar temporariamente suas residências. Uma pessoa ficou ferida. Até o momento, não há registro de mortes ou desaparecidos.

Arroio São Lourenço transbordou em São Lourenço do Sul. Foto: Jorge Schneid/Defesa Civil RS

Em 2024, as enchentes atingiram 478 dos 497 municípios gaúchos, afetaram cerca de 2,4 milhões de pessoas e deixaram 183 mortos. Ao menos 27 pessoas continuaram desaparecidas no balanço consolidado. A tragédia alcançou praticamente todo o território estadual e obrigou centenas de milhares de moradores a deixarem suas casas.

Os prejuízos financeiros inicialmente contabilizados pelas prefeituras chegaram a R$ 13,3 bilhões, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios. O valor, porém, foi calculado com dados enviados por parte das cidades atingidas e não representa necessariamente todo o impacto econômico do desastre. Desse total, aproximadamente R$ 4,7 bilhões estavam relacionados à habitação, R$ 2,6 bilhões a danos no setor público e R$ 6 bilhões a prejuízos no setor privado.

As perdas foram muito além dos números. Casas, empresas, estradas, pontes, escolas, unidades de saúde, redes de água e de energia foram destruídas ou danificadas. Em municípios dos vales do Taquari e do Caí e na Região Metropolitana de Porto Alegre, bairros inteiros ficaram submersos ou tiveram sua ocupação revista diante do risco de novos desastres.

Desde então, governos, municípios e comunidades iniciaram um processo de reconstrução que inclui recuperação de infraestrutura, reassentamento de famílias, reforço de diques, modernização de comportas, instalação de equipamentos de monitoramento e revisão dos sistemas de alerta e evacuação.

As chuvas de julho de 2026 mostram, porém, que reconstruir não significa eliminar o risco. Dois anos depois, o Rio Grande do Sul entra em uma nova etapa: a de verificar, sob condições reais, se as obras, os sistemas de prevenção e os protocolos criados depois da catástrofe conseguem responder a eventos extremos que tendem a se tornar mais frequentes.

Para especialistas, a repetição de chuvas intensas, enchentes e períodos de estiagem mostra que o Rio Grande do Sul já enfrenta um cenário climático diferente daquele usado historicamente para planejar as cidades e dimensionar obras de infraestrutura.

“O aumento da temperatura média no estado passa de 1,5 grau. Isso significa que a gente tem um novo normal climático, a gente tem um novo clima no estado”, afirmou o climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista ao Brasil de Fato publicada em junho deste ano.

Segundo o pesquisador, o aquecimento do planeta e dos oceanos torna a atmosfera mais favorável à ocorrência de eventos extremos. A adaptação, portanto, não pode depender apenas de grandes obras. Deve incluir sistemas de monitoramento e alerta, Defesas Civis estruturadas, educação para percepção de risco, planejamento urbano e retirada gradual de ocupações das áreas mais vulneráveis.

A avaliação também é sustentada por um estudo técnico-científico coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. O levantamento aponta que, no Sul do Brasil, as cheias extremas podem se tornar até cinco vezes mais frequentes. Eventos antes estimados para ocorrer uma vez a cada 50 anos poderiam se repetir em intervalos próximos de dez anos.

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