A imagem de carros sendo arrastados pela força da água é conhecida pelos moradores de Ubá desde a enchente histórica de fevereiro. Nesta semana, cenas semelhantes voltaram a circular pelo mundo, desta vez na China. Enquanto o país asiático enfrenta uma sequência incomum de tufões, a Europa sofre com ondas de calor e incêndios florestais, e o Sul do Brasil se prepara para vários dias consecutivos de tempestades sob influência do novo El Niño.
Para especialistas, a sucessão de eventos extremos em diferentes continentes reforça uma tendência observada nos últimos anos: desastres climáticos cada vez mais frequentes, intensos e com menor intervalo para recuperação das áreas afetadas.
China enfrenta temporada de tufões acima da média
Dias depois da devastação provocada pelo tufão Maysak, a China já sofre os impactos do tufão Bavi. O Centro Nacional do Clima da China prevê a formação de até seis tufões em julho, acima da média histórica de 3,8, e estima que até trêspossam atingir diretamente o continente, também acima da média de 1,8.
“O problema com esses eventos é que eles só estão aumentando”, afirmou Benjamin Horton, reitor da Escola de Energia e Meio Ambiente da Universidade da Cidade de Hong Kong, em entrevista à Reuters. “A magnitude dos eventos está aumentando e não há tempo para se recuperar e se tornar resiliente. Isso vai se repetir, se repetir e se repetir.”
Milhões de pessoas já foram retiradas de áreas de risco, enquanto as autoridades mantêm alertas para enchentes, deslizamentos e novos temporais.
As enchentes também provocaram situações incomuns. Em Hengzhou, cidade conhecida pela criação comercial de serpentes, cerca de 900 cobras, incluindo espécies venenosas como najas e cobras-rei, escaparam após fazendas serem inundadas. Equipes de emergência reforçaram os estoques de soro antiofídico e iniciaram operações para capturar os animais depois que serpentes passaram a aparecer em ruas, residências e escadarias de prédios. Houve registros de acidentes com mordidas, e ao menos uma morte é investigada pelas autoridades.
Os impactos atingiram ainda a fauna em cativeiro. Em um zoológico de Guigang, funcionários optaram por manter leões, ursos e lobos presos nos recintos para evitar fugas durante a inundação. Três leões morreram afogados e mais de uma centena de animais desapareceu após o avanço das águas, reacendendo o debate sobre protocolos de emergência para eventos climáticos extremos.
Europa registra calor extremo, incêndios e milhares de mortes
Na Europa, a emergência climática assume outra forma. Depois de enfrentar uma das ondas de calor mais intensas dos últimos anos, diversos países ainda lidam com incêndios florestais, impactos na saúde pública e danos à infraestrutura.
Um estudo divulgado por pesquisadores europeus estima que o calor extremo provocou cerca de 10 mil mortes acima do esperado durante a recente sequência de altas temperaturas, que atingiu principalmente Espanha, França, Portugal, Itália e Reino Unido. Em várias cidades, os termômetros ultrapassaram os 40°C por vários dias consecutivos.
Na França, a região metropolitana de Paris também permanece em alerta. As altas temperaturas elevaram o risco de novos incêndios nas áreas de floresta ao redor da capital, enquanto autoridades reforçaram medidas para proteger idosos, crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Na Espanha, um incêndio florestal se tornou o mais letal da história recente do país, deixando ao menos 12 mortos e dezenas de desaparecidos. O fogo destruiu áreas de vegetação, obrigou moradores a deixarem suas casas e mobilizou milhares de bombeiros.
O calor também provocou restrições a atividades ao ar livre, afetou o transporte e aumentou a pressão sobre os serviços de saúde.
Especialistas alertam que a combinação entre temperaturas recordes, vegetação ressecada e baixa umidade cria condições favoráveis para incêndios de grandes proporções, tornando os verões europeus cada vez mais longos e severos.
El Niño aumenta risco de temporais no Sul do Brasil
No Brasil, a preocupação do momento está concentrada no Rio Grande do Sul.
Segundo a MetSul Meteorologia, o novo El Niño começa a influenciar as condições atmosféricas no Sul do país. A partir desta quarta-feira (15), o estado poderá enfrentar até sete dias consecutivos de instabilidade, com previsão de chuva intensa, granizo, rajadas de vento e elevados volumes de precipitação.

Os acumulados devem variar entre 100 e 200 milímetros em diversos municípios, podendo alcançar 300 milímetros em áreas isoladas. O cenário aumenta o risco de alagamentos urbanos, transbordamento de arroios e rios, além de inundações repentinas. Embora não haja previsão de uma onda de calor, a combinação entre uma massa de ar quente e a chegada de frentes frias deve provocar dias de forte abafamento e favorecer a formação de tempestades.
O estado já sente os efeitos da instabilidade. No último sábado, um temporal atingiu Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, com ventos, granizo e chuva intensa. Cerca de 720 pessoas ficaram desalojadas, houve destelhamentos, queda de árvores, interrupção no fornecimento de energia e água, suspensão das aulas municipais e decretação de situação de emergência.
Uma realidade compartilhada
Embora ocorram em contextos diferentes, os episódios registrados na China, na Europa e no Sul do Brasil têm um elemento em comum: a intensificação dos eventos climáticos extremos.
Para cidades que já enfrentaram grandes desastres, como Ubá, acompanhar essas experiências internacionais ajuda a compreender que adaptação climática, planejamento urbano, sistemas de alerta e reconstrução resiliente deixaram de ser desafios locais e passaram a integrar uma agenda global. Em um cenário de eventos cada vez mais frequentes e intensos, o tempo entre um desastre e outro diminui, tornando a preparação das cidades um dos principais desafios deste século.
Com informações de Reuters, Associated Press, Bloomberg, Xinhua, NBC News, Sky News, MetSul Meteorologia, Exame, CNN Brasil, Estadão, g1, Correio do Povo e Metrópoles.



