Moradores atingidos pelas enchentes de fevereiro deste ano em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, voltaram a cobrar respostas do poder público sobre moradia, áreas interditadas, obras de reconstrução e critérios de acesso aos programas de assistência. Já se passaram mais de quatro meses das chuvas que deixaram 66 mortos e 8.584 pessoas desabrigadas e desalojadas em toda a região.
“A minha rua toda está interditada, minha casa desabou e eu moro numa casa toda rachada, onde eu nem deveria estar, e a gente precisa de respostas, porque teve muitas pessoas lá, falando muitas coisas, mas a gente ainda tá no escuro”, relatou Fernanda de Oliveira, moradora do Bairro Vila Olavo Costa.
Mais de 100 moradores, especialistas, autoridades e representantes da sociedade civil estiveram em audiência pública para apurar a real situação das famílias afetadas pelas chuvas de fevereiro e encaminhar reivindicações aos órgãos responsáveis. O encontro ocorreu no Tribunal do Júri do Fórum da Comarca de Juiz de Fora.
O sentimento de incerteza também apareceu no depoimento de Luciano Lins, morador do Bairro Linhares. “Olhando pelo lado de quem perdeu, quatro meses parecem 40 anos”, desabafou.
Cidadãos de bairros como Parque Burnier, Linhares, Vila Olavo Costa e Paineiras relataram dúvidas sobre quem foi ou não contemplado pelo programa Compra Assistida e pelo Auxílio Reconstrução. Também foram levantadas cobranças sobre interdições em áreas de risco, retorno de famílias a imóveis condenados e reconstrução de vias que ficaram intransitáveis, como a Estrada Engenheiro Gentil Forn, ligação entre o Centro e a Cidade Alta.
Lucas Gusmão, que mora no Parque Burnier, afirmou que muitos atingidos voltaram para casas interditadas por não enxergarem soluções concretas.
“Eu estou com a minha moradia há 120 dias interditada na Rua Natalino José de Paula, eu tenho medo de retornar e eu sei que assinei um papel em que eu me responsabilizo caso aconteça alguma coisa com a minha família”, disse.
As falas dos moradores também foram acompanhadas por questionamentos do Legislativo. O presidente da Comissão Especial das Chuvas, vereador João Wagner Antoniol (MDB), cobrou informações sobre as famílias que não se enquadram no Compra Assistida e sobre aquelas que, mesmo com imóveis interditados, estavam abrigadas em casas de parentes e precisaram retornar. “As pessoas que não se enquadram no Compra Assistida terão acesso a algum outro tipo de programa? Em relação às famílias que estavam abrigadas na casa de parentes, mas tiveram que voltar para suas casas interditadas, serão assistidas por algum benefício?”, questionou.
Autoridades prometem encaminhar demandas
A audiência foi conduzida pela desembargadora Maria Luíza de Marilac Alvarenga Araújo, superintendente do Núcleo de Voluntariado do TJMG, do Comitê PopRuaJud Minas Gerais e coordenadora do Covve. Segundo ela, os relatos apresentados serão formalmente encaminhados aos órgãos responsáveis.
“Todas as demandas surgidas na audiência e os relatos das vítimas atingidas pelas chuvas serão encaminhados para os órgãos responsáveis em busca de soluções”, afirmou a desembargadora.
Representando o Executivo municipal, participaram secretários de áreas diretamente envolvidas na reconstrução, como Governo, Assistência Social, Obras, Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Direitos Humanos e Educação, além da Defesa Civil.
A secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Cidinha Louzada, afirmou que o município entrou em uma nova etapa do processo de reconstrução habitacional. Segundo ela, até dezembro todos os contemplados pelo Compra Assistida deverão receber suas casas.
“Chegamos a uma etapa importante, quando o planejamento, os laudos, os pareceres começam a se transformar em novas moradias. Enfrentamos desafios e tivemos que corrigir erros no caminho”, disse.
Judiciário quer atuar como mediador
O Núcleo de Voluntariado do TJMG participa do Gabinete de Crise de Resposta ao Desastre de Juiz de Fora desde sua criação, em fevereiro de 2026. O grupo reúne órgãos federais, estaduais e municipais para dar mais agilidade às ações de socorro, reconstrução e prevenção de novos desastres.
Além do acompanhamento das demandas, o Núcleo trabalha na elaboração de um projeto para que o Poder Judiciário atue como mediador e facilitador do diálogo entre os diferentes entes responsáveis pelas ações voltadas às famílias atingidas.
Também participaram da audiência representantes do Ministério Público de Minas Gerais e do Ministério Público Federal. Pelo MPMG, esteve presente a promotora de Justiça do Patrimônio Público, Danielle Vignoli. Pelo MPF, participou o procurador da República Tiago Cunha de Almeida.
A audiência deixou claro que, embora os recursos estejam sendo anunciados e projetos avancem em diferentes frentes, parte das famílias atingidas ainda vive sob incerteza. Para os moradores que perderam casas, ruas, acesso e segurança, a reconstrução ainda depende de respostas mais concretas e prazos capazes de chegar à vida real.



