O setor cultural, um aliado cada vez mais valorizado na formação de uma nova consciência ambiental no pais, foi duramente impactado pelas enchentes que devastaram cidades da Zona da Mata em fevereiro. Em Ubá, por exemplo, vários shows nacionais foram cancelados, assim como festivais de teatro e grandes eventos esportivos. Em Juiz de Fora e Matias Barbosa não foi diferente. Agora, quatro meses depois, é exatamente a cultura que tem atuado ativamente na reconstrução da autoestima coletiva e da convivência social das populações dessas cidades.
Em Ubá, por exemplo, artistas, produtores e outras lideranças executam no momento um plano de recuperação da cultura após o desastre que ainda abala o município.
“As enchentes causaram perdas humanas, prejuízos econômicos e abalaram emocionalmente a população. Diante desse cenário, a cultura surge como uma ferramenta essencial de acolhimento emocional, reconstrução da autoestima coletiva, fortalecimento da economia local e reativação do turismo e da convivência social”, disse ao Portal Reconstruções Aurélio Pimenta, um dos principais nomes da cena cultural mineira e um dos autores do plano.
“Resolvi liderar esse plano por já conhecer a cultura de Ubá por completo, por fazer parte dos movimentos culturais e estar em algo que eu realmente tenho conhecimento e articulação. Eu amo Ubá de verdade”, afirmou.
Elaborado por representantes do setor cultural, o Plano de Retomada Cultural foi estruturado como uma estratégia para utilizar a arte como instrumento de reconstrução social e econômica da cidade. A proposta reúne artistas, produtores, empresários e instituições em torno de ações capazes de estimular o comércio, fortalecer o turismo, criar oportunidades para trabalhadores da cultura e, ao mesmo tempo, oferecer espaços de acolhimento para uma população profundamente marcada pela tragédia.
O documento organiza as iniciativas em três eixos principais. O primeiro, “Cultura que Acolhe”, concentra ações voltadas ao bem-estar emocional, com oficinas artísticas, teatro comunitário, apresentações musicais, atividades para crianças e intervenções que utilizam a arte como ferramenta de cuidado e reconstrução dos vínculos sociais.
Já o eixo “Cultura que Movimenta” busca impulsionar a economia criativa e o comércio local por meio da realização de festivais, apresentações artísticas, feiras de artesanato, eventos gastronômicos e programação cultural em áreas comerciais, incentivando novamente a circulação de moradores e visitantes pela cidade.
O terceiro eixo, “Cultura que Projeta”, pretende fortalecer a identidade cultural de Ubá e reposicionar a imagem do município após a tragédia, promovendo campanhas de valorização da cidade, intervenções urbanas e eventos capazes de atrair turistas e investidores.
Entre as propostas previstas no plano estão a realização do Festival Ubá Vive, com programação distribuída por diferentes bairros; o Circuito Cultural nos Bairros; o programa Cultura no Comércio; ações da iniciativa Arte que Cura, voltadas ao apoio emocional de pessoas afetadas pelas enchentes; atividades culturais nas escolas; um circuito gastronômico denominado Sabores e Sons de Ubá; além da realização da Noite da Esperança de Ubá, evento simbólico que pretende homenagear vítimas, voluntários e profissionais que atuaram durante a tragédia.
Embora nem todas as iniciativas tenham sido implementadas, parte do plano já começou a sair do papel. Segundo Aurélio Pimenta, fóruns de debate sobre a reconstrução cultural vêm sendo realizados com participação de artistas e representantes da sociedade civil. O movimento também tem promovido espetáculos no Espaço Mutum, buscando retomar gradualmente a programação cultural da cidade.
Outra iniciativa inspirada no plano foi a campanha do Dia do Abraço, realizada em diferentes pontos de Ubá como forma de estimular o acolhimento e fortalecer o sentimento de pertencimento da população após a enchente.
O grupo também conseguiu aprovar um projeto de aproximadamente R$ 300 mil junto ao Governo de Minas Gerais para financiar novas ações culturais. Os recursos, no entanto, só poderão ser captados em 2027, em razão das restrições impostas pelo calendário eleitoral. Paralelamente, os articuladores aguardam a confirmação de emendas parlamentares que poderão ampliar o alcance das atividades previstas.
Aurélio ressalta que diversas ações culturais promovidas atualmente pela Secretaria Municipal de Cultura ocorrem de forma paralela e não integram formalmente o Plano de Retomada Cultural, embora contribuam para o processo de reconstrução da cidade.
Após ser fortemente impactada pelas chuvas de fevereiro, a Companhia Teatral Mutum, que funciona na antiga estação ferroviária de Ubá, na Praça Guido Marilieri,
Com cerca de duas décadas de atuação nas artes, Aurélio Pimenta é ator, diretor teatral, produtor cultural, apresentador de televisão, palestrante, empresário e professor. Especialista em Artes Cênicas, Gestão e Produção Cultural, ele acredita que a recuperação da cidade não depende apenas da reconstrução da infraestrutura.
“A reconstrução física é indispensável, mas as cidades também precisam reconstruir seus afetos, sua autoestima e sua capacidade de sonhar. É exatamente nesse ponto que a cultura faz diferença”, conclui.
Juiz de Fora retoma agenda de eventos
A retomada da vida cultural também começa a ganhar força em Juiz de Fora, uma das cidades atingidas pelas enchentes históricas de fevereiro. Nos últimos meses, a prefeitura voltou a promover grandes eventos públicos e reabriu equipamentos culturais que haviam sido fechados em razão dos danos provocados pelas chuvas.

Neste fim de semana, por exemplo, o tradicional Arraiá da Cidade integra as comemorações pelos 176 anos de Juiz de Fora, reunindo apresentações musicais, quadrilhas, danças populares, brincadeiras e gastronomia no Parque Municipal. Paralelamente, o município também iniciou a temporada de eventos agropecuários de 2026, com a realização de torneios leiteiros e atividades culturais em distritos rurais até setembro, movimentando produtores, comerciantes e artistas locais.
Outro marco da retomada foi a reabertura do Museu Mariano Procópio, um dos mais importantes patrimônios históricos de Minas Gerais, que permaneceu fechado por cerca de três meses para reparos emergenciais após os estragos causados pelas enchentes. A reabertura foi acompanhada da exposição fotográfica Museu e Resiliência: entre desafios e recomeços, que apresenta imagens do trabalho de recuperação do complexo museológico e presta homenagem às equipes envolvidas na reconstrução do espaço.



